domingo, 31 de agosto de 2014

Dia 2 (parêntesis)

Ao procurar umas calças no fundo da mala, descobri um envelope. O conteúdo deste envelope fez-me chorar. Muito.
Um colar com um coração, uma papoila seca, e mais forte do que tudo, a última fotografia que tirámos os três juntos: eu e os meus pais. Se não fosse o vosso amor e a vossa força, eu não estava aqui.


Dia 2

Hoje, os companheiros de casa arrancaram-me da cama... e de casa!
Devo apresentá-los adequadamente: são o G., um português que vive em Inglaterra desde os 5 anos, e a sua namorada M., uma eslovaca muito muito querida!
A M. quis levar-me a passear. Acabámos por ir ao centro, porque eles insistiram em ir comigo tratar do passe de autocarro e do cartão de telemóvel inglês.
Depois, almoçámos numa pequena feira que estava a acontecer em Manchester Piccadilly, muito gira - com comida indiana, americana, pizzas em forno de lenha, shoarmas, cachorros... enfim. Passámos pela China Town, onde eles queriam ir comprar molho de soja. Contaram-me que têm um ritual muito engraçado quando vão a estas lojas chinesas - compram sempre uma coisa diferente, estranha, para provarem! Uma das coisas que compraram hoje foram umas barras de sementes de sésamo, por acaso bastante saborosas.
Em seguida levaram-me ainda a um bar numa zona muito gira, com canais e barcos - Castlefield - onde bebi a minha primeira cerveja. Por fim caminhámos até casa, porque já estávamos perto, e perdemos um autocarro por segundos.
Hoje parece que até o dia queria ajudar - pôs-se um céu muito bonito, e uma temperatura simpática!
Amanhã é o meu primeiro dia de trabalho, e estou ansiosa. Por isso, ao contrário do que me é costume, vou arranjar já a roupa hoje e vou dormir. Boa noite!



sábado, 30 de agosto de 2014

Dia 1 - (só um parêntesis)

Tive subitamente esta visão de mim própria, conforme me apercebi da minha falta de vontade de sair do quarto e conviver...
Recolher-me para sarar as feridas. Penso que é necessário respeitar-me a esse ponto, certo?

Cartoon: Jeff Harter, "Cat licking paw"

Dia 1 - 30 de Agosto

Hoje fui procurar casa - com sucesso! No dia 4 de Setembro já posso instalar-me nesta nova casa, com 7 pessoas, em Old Trafford. O quarto é enorme, tenho casa de banho para mim e - delícia de qualquer português - uma enorme janela para deixar entrar... a cinzentude. Vá, mas é melhor do que nada.
A verdade é que está um pouco acima do meu budget mensal - em 50 libras -, mas sinto que neste momento é prioritário encontrar um poiso, um cantinho que possa pintar com as minhas cores, para ajudar a disfarçar a lentidão dos dias.
Todos me dizem que "o tempo passa a voar" e que "daqui a nada já acabou, e vais sentir saudades!!"... para ajudar o tempo nessa tarefa, fui até ao centro da cidade, para ver o trajecto que terei de fazer para ir para a faculdade onde trabalho. Depois fui beber um expresso - vícios tugas que aqui custam uma libra e meia!! -, e fui até à Primark fazer a minha primeira compra para celebrar o novo quarto: uma almofada, um semi-edredon, uma capa de colchão e uma capa de edredon. Cheguei à conclusão de que esta loja vai ser a minha grande amiga aqui, já que as coisas são bastante baratas em relação ao resto da cidade.
Como poderão perceber pelo "tom" implícito, esta ida ao centro da cidade animou-me. Estive no meio de muita gente, ao contrário da zona residencial onde vivo - na Market Street, pelo contrário, sentimo-nos muito acompanhados -, passeei e comprei algo que simboliza o meu espaço e as minhas regras.
Agora que voltei para casa (a "temporária"), no entanto, volto a sentir-me mais azulinha... não sei se esta casa tem más energias, ou se é pelo facto de me sentir desconfortável (com os padrões de limpeza, sobretudo)... mas lá consegui afastar um bocadinho esta nuvem com o acto de "skypar". Hoje tive de conter menos as lágrimas, e disseram-me que levantei mais os olhos... já é qualquer coisa, não é?
As nuvens e a chuva miudinha mantiveram-se - mas hoje já as enfrentei de chapéu de chuva. Já não me apanha desprevenida...

Dia 0 - 29 de Agosto de 2014

(Começo por pedir desculpa. A verdade é que este texto vai soar terrivelmente a um fado português. Mas é a cor deste dia, e como tal, assim tinha de ser pintado.)

Mais de duas horas depois, avião atravessou o nevoeiro e eu confrontei-me com a chuva. Para trás ficou o céu azul, o lar que conheço há 18 anos e os meus "essenciais" lavados em lágrimas, depois de muitos e muitos abraços, muitos sorrisos tremidos, muitos "até já".
Os dedos gordos das inglesas ainda espetados nos chinelos baratos, as suas peles avermelhadas ainda a borbulhar do sol português, o cheiro a aftersun e suor. Lá fora a neblina, a cinzentude. E aqui dentro, um entristecer de guerra aberta no meu peito.
"Recorda-te", repito para mim, "foste tu que quiseste isto. É trabalho, é bem reputado, é na tua área, pode abrir-te portas de volta ao teu país." Mas porque é que isso não chega, desde que me sentei no avião, para me fazer sorrir?
Oiço a criança ao meu lado desenhar no ar essa frase fabulosa: "Chegámos a casa!". Todos à minha volta reagem de forma aparentemente entusiástica à ausência de sol, enquanto aterramos. Já eu, encolhida no meu lugar junto à coxia, visto o meu impermeável com lágrimas nos olhos - "Eu acabei de me vir embora da minha casa."
Irrito-me comigo própria. Eu é que procurei, eu é que fiz e lutei, ansiei. E agora, chegada aqui... quero voltar para casa.
Apanho o táxi para não carregar a mala excessivamente pesada. Espera-me uma casa suja e bafienta, felizmente temporária. Até dia 2 tenho de encontrar um lar definitivo para os 6 meses, e esta casa reforça a urgência de o fazer.
A pronúncia portuguesa do companheiro de casa acalma-me, mas aguça as saudades.
Os companheiros de casa insistem em partilhar o jantar. Sorrio, procuro conhecer e dar-me a conhecer.
Mas este vazio... que me acorda a meio da noite e me deixa especada a assistir ao desfile das horas... que me rompe em lágrimas... é pesado.

Querem saber a verdade absoluta? Se eu soubesse que era isto que ia sentir... nunca, mas nunca teria vindo.

"Volto atrás nesta viagem... à procura da coragem..." (António Zambujo, "Em quatro luas")