(Começo por pedir desculpa. A verdade é que este texto vai soar terrivelmente a um fado português. Mas é a cor deste dia, e como tal, assim tinha de ser pintado.)
Mais de duas horas depois, avião atravessou o nevoeiro e eu confrontei-me com a chuva. Para trás ficou o céu azul, o lar que conheço há 18 anos e os meus "essenciais" lavados em lágrimas, depois de muitos e muitos abraços, muitos sorrisos tremidos, muitos "até já".
Os dedos gordos das inglesas ainda espetados nos chinelos baratos, as suas peles avermelhadas ainda a borbulhar do sol português, o cheiro a aftersun e suor. Lá fora a neblina, a cinzentude. E aqui dentro, um entristecer de guerra aberta no meu peito.
"Recorda-te", repito para mim, "foste tu que quiseste isto. É trabalho, é bem reputado, é na tua área, pode abrir-te portas de volta ao teu país." Mas porque é que isso não chega, desde que me sentei no avião, para me fazer sorrir?
Oiço a criança ao meu lado desenhar no ar essa frase fabulosa: "Chegámos a casa!". Todos à minha volta reagem de forma aparentemente entusiástica à ausência de sol, enquanto aterramos. Já eu, encolhida no meu lugar junto à coxia, visto o meu impermeável com lágrimas nos olhos - "Eu acabei de me vir embora da minha casa."
Irrito-me comigo própria. Eu é que procurei, eu é que fiz e lutei, ansiei. E agora, chegada aqui... quero voltar para casa.
Apanho o táxi para não carregar a mala excessivamente pesada. Espera-me uma casa suja e bafienta, felizmente temporária. Até dia 2 tenho de encontrar um lar definitivo para os 6 meses, e esta casa reforça a urgência de o fazer.
A pronúncia portuguesa do companheiro de casa acalma-me, mas aguça as saudades.
Os companheiros de casa insistem em partilhar o jantar. Sorrio, procuro conhecer e dar-me a conhecer.
Mas este vazio... que me acorda a meio da noite e me deixa especada a assistir ao desfile das horas... que me rompe em lágrimas... é pesado.
Querem saber a verdade absoluta? Se eu soubesse que era isto que ia sentir... nunca, mas nunca teria vindo.
"Volto atrás nesta viagem... à procura da coragem..." (António Zambujo, "Em quatro luas")
Sem comentários:
Enviar um comentário