segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Feeling blue. So make it blue sky.

Hoje sinto-me cinzentinha como o tempo (que, já agora, há uma semana que não deixa entrever o sol).
Mais – estou preguiçosa e friorenta como um gato.
É, por isso, dia de sair do trabalho e ir abastecer a dispensa – não só de comida para a semana, mas também, e mais importante neste caso, um saco de maçãs, farinha e açúcar amarelo. Para a terapia.
Depois, é chegar a casa e fazer crumble de maçã, com nota especial para o francês, o E., que um destes dias partilhou heroicamente um dos seus dois crumbles (de compra) comigo. Heroicamente porque ficou sem nenhum, e afirma que podia viver só a comer este doce. Portanto, imaginam o sacrifício.
E depois é momento de um duche e de me preparar uma refeição leve (que não vou comer no quarto, por maior que seja a tentação) e enfiar-me na cama a escrever, porque a vontade anda louca. E quando essa fonte secar, cubro a cabeça com os lençóis e encho-a com as histórias das séries que o papá me tem mandado, como beijinhos na testa, até adormecer.

Abrace-se a tristeza. Aceite-se que ela está lá, porque está. Mas não se desista.
Ou então: se a vida te dá limões e não te apetece limonada, faz antes um cocktail.

domingo, 26 de outubro de 2014

Hoje, este é para o M.

A quem por aqui costuma passar em busca de notícias da Nani, começo por pedir desculpa.
É que sabem, esta foi a semana mais feliz que passei desde que aqui estou. E tal como a esmagadora maioria dos momentos que valem a pena não são captados pelas luzes de uma câmara (nem são colocadas à disposição nas redes sociais), porque o coração está ocupado a sorrir, também este "momento" ficou por captar... porque estava a ser vivido.

Porque o momento foi de saborear. De aproveitar, de esmifrar as horas.
O meu M. veio cá passar uma semana comigo. E só agora, sentada no quarto que voltou a ficar vazio, é que consigo recapitular os dias.
Estou contente comigo, com o percurso que tenho feito até aqui, por várias razões. Porque me adaptei, apesar de não ter sido fácil. Porque estou continuamente a aprender novas formas de me safar sozinha. Estou a escrever um capítulo novo na minha história ao ser capaz de sorrir, ao colo da solidão.
Ah, e também estou contente porque não chorei quando nos despedimos no aeroporto. Porque de resto, não houve nada de difícil em ter-te aqui.

Mas o quarto está triste, M.. Ele aponta o dedo à prateleira desocupada que deixaste, à almofada que perdeu o emprego. Refila das bolachas que deixaste aqui ficar, porque sabe que eu não as vou comer. Queixa-se dos risos que ouviu, das conversas que guardou, e das quais já só sobra o eco.
Os pequenos sinais de que estiveste aqui são pequenos murros no estômago (para o quarto, claro está). Porque podia ter sido tudo um sonho. Mas está ali o boneco que trouxemos do MacDonalds. Aqui estão duas toalhas molhadas no estendal, em vez de uma. Na cómoda ficou a tua lâmina de barbear.
Ele queixa-se que está mais frio aqui dentro, agora. Se formos a ver, até concordo com ele, não sei bem porquê.
Mas fico zangada com este quarto, sabes M.? Porque fui eu que vim para cá. Habitei-o sozinha, adaptei-me, fiz dele meu.
E agora que lhe demos este gostinho dos dias partilhados a dois, ele não se satisfaz com menos. Suponho que o percebo... tal como um corpo se molda a um abraço, também os dias se adaptam ao mimo. Olha, eu cá adaptei-me lindamente. Em poucos dias, concluí que podia viver sempre assim!

Porque viver contigo é tão fácil. Tão fácil que até me deixa tempo de sobra para embirrar contigo e com as tuas manias, e tu com o passatempo divertido de me contrariares...
Agasalho-me bem, aceitando o frio no quarto. Tenho de reconhecer que apesar disso, há uma luz que perdurou aqui, mesmo depois de teres ido.
Uma luz de gratidão, pela mala cheia de amor que me trouxeste, toda ela numa língua que eu entendo. Caíram algumas lágrimas, porque afinal Manchester ainda não mudou assim tanto a Nani! Isso só serve, no entanto, para mostrar que ela não é fácil de dobrar...
Obrigada por me relembrares do porquê de eu estar aqui. E por me recarregares com a recordação e a energia de dias felizes e partilhados, que me deram forças para continuar. Esperança.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

#Coisas que a francesa faz.

Um dia destes, contava à mana as peripécias cá de casa. Ela gostou tanto de ouvir falar da minha flatmate francesa, a D., que achou que era digno de um post só para ela. Assim sendo, venho falar sobre aquela a quem em português poderíamos chamar uma autêntica "personagem"! Senão vejamos:

Aventura número 1.
Uma noite, estava eu com a M., a espanhola, a ver televisão na sala, quando chega a D. do trabalho - ela trabalha num restaurante, no turno da noite. Muito amigavelmente, oferece-nos brownie que trouxe do trabalho. Nós aceitamos. Ela coloca então um saco de plástico de supermercado em cima da mesa. Toda contente, enfio a mão dentro do saco, à procura da embalagem, tupperware, saco de plástico, (qualquer coisa!) que contivesse o sagrado bolinho. Qual não é o meu espanto quando percebo que ela atirou o brownie directamente para dentro do saco (que andou sabe Deus onde, e com sabe Deus o quê lá dentro!!), aos bocados... como se fosse comida de cão.
Claro que depois de lá ter enfiado a mão, era tarde demais para dizer que não me apetecia, que estava de dieta ou qualquer outra justificação extremamente plausível... pelo que sim, comi o mais pequeno pedaço de brownie que consegui encontrar. E a experiência poderia ser descrita como algo próximo da metáfora de um cowboy de calças de ganga, sem roupa interior...

Aventura número 2
A D. veio ter comigo uma destas tardes, com um ar muito solene. Disse-me, no seu inglês cheio de acento afrancesado, que eu não podia fechar a porta de casa à chave. Achei, como em tantas outras situações, que não devia estar a compreendê-la bem. É que sabem, nós temos duas portas para a rua - uma primeira porta de vidro, e uma segunda porta que dá para o interior da casa. Ora, a porta interior não pode ser trancada, porque caso seja, não se consegue abrir por fora. Assim, só resta a porta exterior de vidro, para dar ALGUMA segurança a quem lá está dentro.
Ora, ela dizia-me que não se podia fechar a porta exterior, a única porta que se pode fechar! Por fim, quando tive a certeza de que estávamos a falar da mesma porta, perguntei-lhe porque raio é que não se podia fechar. Ela respondeu-me, muito séria: "Porque imagina que recebes alguma encomenda. Assim eles podem abrir a porta e deixar-te a encomenda do lado de dentro. Escusas de ter de a ir levantar aos correios...". Vou ser sincera, isto não me faz muito sentido, não só porque ela entra de tarde (ou seja, tem a manhã para receber a encomenda ou para a ir levantar), mas também porque os horários dos correios aqui são extremamente flexíveis (até ao sábado estão abertos) e porque está quase sempre alguém em casa para atender a porta...
Mas mesmo assim, tentei explicar-lhe o meu ponto de vista: "Mas assim ficamos com as portas todas praticamente abertas, só no trinco! Isso não faz muito sentido, assim quase qualquer pessoa pode entrar!". Ela olha para mim, como se tivesse a solução na ponta da língua, e diz-me num tom muito reconfortante.: "Ah, não te preocupes! Se eles quiserem entrar entram, de qualquer maneira! Se quiserem realmente entrar arranjam maneira, partem o vidro ou assim, por isso vai dar ao mesmo!"
Reflexão: "Ah, ok... assim sendo, fico muito mais descansada!! Até vou passar a deixar a porta destrancada de noite, como tu fazes... não vão os correios lembrar-se de mandar alguma encomenda de madrugada!"

Aventura 3
Numa noite, estava eu a arrumar a cozinha, chega a D. a casa. Senta-se, como habitualmente, à entrada da porta da cozinha, que dá para o pátio, a fumar um cigarro. Já falei por aqui da nossa vizinha gatinha, a Beebee, que gosta mais de estar no nosso quintal do que no dos donos. Aliás, a gata está sempre a dormir no nosso quintal, de manhã à noite.
Ora, como me tinha sobrado um bocadinho de gordura da carne do jantar, decidi ir dá-la à Beebee, porque achei que mais valia isso do que deitar fora. Assim que me dirijo ao pátio e a D. percebe o que eu ia fazer, agarra-me na mão e empurra-me para dentro, dizendo-me de olhos arregalados: "Não! Não podes dar-lhe comida!"
Eu vou ser honesta: pensei que ela estava a censurar-me por dar gordura ao animal. Quase me senti mal por o fazer, mas era só um bocadinho e estou certa de que ela ia gostar. Nisto, a D. completa o seu raciocínio:
"Não podes mesmo dar-lhe comida, senão então aí é que ela não sai mais da nossa porta!"
Ah, bom... e isso claramente é uma questão de segurança nacional.

Aventura 4
Um destes dias estávamos na cozinha a conversar, quando ela avistou uma aranha gigante num canto, no tecto. Olhou para mim e disse prontamente: "eu sei que tens aracnofobia... não te preocupes, eu trato dela!" Subiu imediatamente para uma cadeira, descalçou um dos ténis e matou a aranha com ele. Naquele momento, e embora eu não goste que se matem as pobres, eu olhava para a D. como se fosse uma mulher com super-poderes. Ainda estava a elogiar a sua façanha quando a vejo dirigir-se com esse mesmo ténis ao lava-loiça. Pensei: "não, como é óbvio ela não vai fazer o que eu penso que...", enquanto a observava enfiar o bendito sapato dentro do sítio onde eu lavo a minha loiça, e lavar  tranquilamente a sola, como se nada fosse... Escusado será dizer que assim que a apanhei de costas fui fazer uso da lixívia...

domingo, 12 de outubro de 2014

O acto de despojar.

[Sentada no pub mais próximo de casa. A beber um single expresso, ainda que toda a ambiência provoque uma vontade estranha de beber uma cerveja, em seu lugar. O céu lá fora arrasta-se lentamente para um indescritivelmente bonito tom rosado. O calor acolhedor do pub e as suas luzes amareladas tornam mais fácil a instrospecção.]

Hoje senti saudades... Mas foram saudades sem lágrimas. Saudades com um sorriso (não conhecia estas).
Saudades de criança marota, que foi espreitar as prendas do Pai Natal debaixo da cama dos pais.
Saudades de quem sabe o que de bom tem, à sua espera. No seu regresso. Que afinal não se perdeu, como o coração primeiro achou.
Esperam-me coisas amargas, também. No que diz respeito ao trabalho, pelo menos, não são risonhas as expectativas em Portugal, como todo o mundo sabe.
E no entanto... É estranho. Quando me deixo de fantasias e encaro as perspectivas pelo que elas são, consigo, apesar disso, sentir uma paz imensa. Abraçando o bom e encarando o mau de frente.

As saudades que me acordaram hoje foram dos meus amigos. Recordei os abraços sinceros com que me despedi de alguns deles. Os abraços inesperados (recordo, até, um beijo no ombro) com que outros se despediram de mim. Recordo a gargalhada fácil e tantas vezes colectiva. A facilidade com que as conversas se entornam sobre a mesa. A ternura dos olhares cúmplices. Colecções que se vão fazendo ao longo dos anos e que são tão preciosas.

A lucidez das coisas é esta: descobri muita coisa, com o facto de ter vindo para aqui. Agora que me afastei e tomei uma perspectiva mais afastada, neutra. Conclusões que não conseguia tirar enquanto lá estava.
É como se o acto de me despojar, através da distância, permitisse que o azeite viesse ao de cima, por entre a água, tornando claro aquilo que já existia e que importa, separando-o do que não me faz sentido.
Despojei-me de tanto. E agora vejo como precisava disso. E de poder sentir saudades.

sábado, 4 de outubro de 2014

Dar sentido aos passos. Dia 35

Quem me conhece, sabe bem como as minhas emoções são saltitonas. Intensas, flutuantes, arrebatadoras. Para o bem e para mal, quer dos outros quer meu...
Tenho vindo a aprender a viver com isso. Hoje, quando uma emoção realmente boa me assalta, espero para ver. Já não me permito entrar em histerias próprias de princesa da Disney, crédula de que esta onda boa veio para ficar. Sei que estou de "óculos cor-de-rosa" postos...
Da mesma forma, quando me vejo ir irremediavelmente abaixo, respiro fundo e espero. Espero porque sei que o desespero que estou a sentir está ampliado, exagerado pela minha forma teatral de ver a vida. E que tal como a onda boa, não veio para ficar.
Por isso, ontem, depois de ter tido provavelmente o dia mais feliz desde que estou aqui, "(...) já ouvi tantas cantigas que deixei de acreditar..."... e por isso esperei.
Mas o sentimento de paz que estou a experimentar hoje é diferente. Rasga mais fundo, vai realmente até à alma. E não é uma emoção de picos, não é uma exaltação do ser. Parece-se mais com um barco a aproximar-se lentamente do abraço do porto. Aquele agarrar lento, aquele fluir natural.
Não é um momento de glória em si próprio. É uma onda a lamber os pés. Bonança? Um acordar soalheiro?
Devia contextualizar esta poesia toda, se calhar...
Ontem à tarde fui com a M. até Chorlton, um bairro muito engraçado, onde se passeia a classe média alta de Manchester. Cheia de pequenas esplanadas, padarias, pubs modernos e casas de chá. Foi uma boa caminhada, talvez meia hora, e fomos sentar-nos numa esplanada a beber um copo de vinho. Não nos faltou conversa toda a tarde, o que é fantástico... falámos de tudo um pouco - coisas pessoais, temas mais existencialistas, diferenças culturais, sonhos...
Já ao chegar da noitinha, o frio empurrou-nos para dentro, onde continuámos o vinho e a boa conversa. Entretanto chegou a F. - a italiana que vive na minha casa, que também estava a precisar de companhia e de vinho.
Alegres e menineiras, lá saímos a custo daquele espaço simpático com boa música e energia, para irmos em busca de um take-away para encher a barriga.
Acabámos num take-away de kebabs e afins, onde comi um kebab absolutamente mais picante do que aquilo que seria habitual para mim, mas que não obstante me soube bem!
Entretanto juntou-se a nós o simpático G., também ele já com umas cervejas a contribuir para o seu bom humor.
Quando terminámos de comer fomos para outro pub, para nos refugiarmos do frio. Conversámos mais um bom bocado, e voltámos para casa de táxi.
Quando chegámos a casa demos por nós a comer gelados e a conversar na rua com os restantes inquilinos. Foi uma óptima surpresa, conhecer realmente melhor os colegas de casa - até mesmo P., o inglês que não fala muito. Obviamente que o vinho tinto me tinha soltado a língua, tornando mais fácil o convívio. Mas foi muito engraçado dar sentido a este convívio, finalmente. Com menos pressões e menos receio de dizer algo errado.
Sentir alguma pertença, fosse nas partilhas íntimas e empáticas com a M., ou no braço da F. agarrado a mim, protegendo-se do frio, ou no sorriso cúmplice do G. ou até mesmo na atenção dos flatmates enquanto falo um pouco de mim... foram pequenos gestos que trouxeram sentido aos passos que dei até chegar aqui, a Manchester.
Não vim para ficar, mas espero, com todo o coração, deixar um bocadinho de mim nas pessoas com quem me cruzar aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Coisas que constroem o sorriso de uma emigra.

Sopa de tomate. Recantos da casa a que damos o nosso jeito. Encontros imediatos com a natureza. E encomendas cheias de amor e sabor (a Portugal!)

Porque o sorriso esta semana, embora ainda não seja O sorriso habitual da Nani, já tem vindo a instalar-se no coração. E é lá que ele faz mais falta.
O domingo fez-se de volta da minha série de eleição, Downton Abbey, e uma sopa de tomate à portuguesa.

- 1 lata de tomate aos pedaços
- Oregãos (à falta disso, tinha cá Ervas de Provence, que têm um nome muito mais chique e também contêm oregãos)
- 1 cebola
- 1 ou 2 dentes de alho
- 1 ovo
- Azeite
- Sal

Refogar ligeiramente a cebola e os alhos em azeite, até que as rodelas de cebola fiquem transparentes. Acrescentar-lhe o tomate em lata, envolvendo tudo bem. Deixar levantar fervura e baixar o lume, para que cozinhe lentamente. Acrescentar sal (e pimenta, que eu não tinha!) a gosto. Deixar que o tomate cozinhe, ir provando para não deixar apurar muito. Se começar a desaparecer líquido, acrescentar um pouco de água a ferver (dependendo de quão líquida se queira). Quando achar que está quase pronta, deitar-lhe o ovo e não mexer, para deixar que escalfe. Deitar oregãos a gosto e quando o ovo já estiver com uma bonita película branca, servir.

Para as refeições tenho escolhido a sala de estar, onde fizemos algumas alterações e onde me sinto agora muito mais à vontade (terá algo a ver com as mantas novas que envolvem o sofá. e o feng shui, claro).
Na sexta-feira fui acordada pelo correio. Trazia uma encomenda para mim, com uma mistura deliciosa de cheiros (e sabores!) de Portugal. O meu queijo favorito, alheiras, farinheiras, o doce de tomate da mãe, um chourição e uma pen drive cheia de séries, gravadas pelo pai!
Foi um presente caído dos céus e tem-me feito as delícias... tanto as séries como a comida! É bom, saborear aquilo de que somos feitos.

E por fim, não esquecer os doces passarinhos que habitam por aqui, pretos com peito branco, e que têm um cantar inconfundível (e algo estridente). Aparecem-nos pelo caminho, saltitam, dizem-nos adeus e partem, sem mais. E fazem pessoas tontas como eu sorrir.


Oh, já me esquecia de mais uma coisa. O chá de camomila. Sim, a rotina de fazer um chá de camomila e levá-lo para o quarto, para o beber já quase frio antes de dormir. Também ajuda, o chá. Nisso do sorriso.