Um dia destes, contava à mana as peripécias cá de casa. Ela gostou tanto de ouvir falar da minha
flatmate francesa, a D., que achou que era digno de um
post só para ela. Assim sendo, venho falar sobre aquela a quem em português poderíamos chamar uma autêntica "personagem"! Senão vejamos:
Aventura número 1.
Uma noite, estava eu com a M., a espanhola, a ver televisão na sala, quando chega a D. do trabalho - ela trabalha num restaurante, no turno da noite. Muito amigavelmente, oferece-nos brownie que trouxe do trabalho. Nós aceitamos. Ela coloca então um saco de plástico de supermercado em cima da mesa. Toda contente, enfio a mão dentro do saco, à procura da embalagem, tupperware, saco de plástico, (qualquer coisa!) que contivesse o sagrado bolinho. Qual não é o meu espanto quando percebo que ela atirou o brownie directamente para dentro do saco (que andou sabe Deus onde, e com sabe Deus o quê lá dentro!!), aos bocados... como se fosse comida de cão.
Claro que depois de lá ter enfiado a mão, era tarde demais para dizer que não me apetecia, que estava de dieta ou qualquer outra justificação extremamente plausível... pelo que sim, comi o mais pequeno pedaço de brownie que consegui encontrar. E a experiência poderia ser descrita como algo próximo da metáfora de um cowboy de calças de ganga, sem roupa interior...
Aventura número 2
A D. veio ter comigo uma destas tardes, com um ar muito solene. Disse-me, no seu inglês cheio de acento afrancesado, que eu não podia fechar a porta de casa à chave. Achei, como em tantas outras situações, que não devia estar a compreendê-la bem. É que sabem, nós temos duas portas para a rua - uma primeira porta de vidro, e uma segunda porta que dá para o interior da casa. Ora, a porta interior não pode ser trancada, porque caso seja, não se consegue abrir por fora. Assim, só resta a porta exterior de vidro, para dar ALGUMA segurança a quem lá está dentro.
Ora, ela dizia-me que não se podia fechar a porta exterior, a única porta que se pode fechar! Por fim, quando tive a certeza de que estávamos a falar da mesma porta, perguntei-lhe porque raio é que não se podia fechar. Ela respondeu-me, muito séria: "Porque imagina que recebes alguma encomenda. Assim eles podem abrir a porta e deixar-te a encomenda do lado de dentro. Escusas de ter de a ir levantar aos correios...". Vou ser sincera, isto não me faz muito sentido, não só porque ela entra de tarde (ou seja, tem a manhã para receber a encomenda ou para a ir levantar), mas também porque os horários dos correios aqui são extremamente flexíveis (até ao sábado estão abertos) e porque está quase sempre alguém em casa para atender a porta...
Mas mesmo assim, tentei explicar-lhe o meu ponto de vista: "Mas assim ficamos com as portas todas praticamente abertas, só no trinco! Isso não faz muito sentido, assim quase qualquer pessoa pode entrar!". Ela olha para mim, como se tivesse a solução na ponta da língua, e diz-me num tom muito reconfortante.: "Ah, não te preocupes! Se eles quiserem entrar entram, de qualquer maneira! Se quiserem realmente entrar arranjam maneira, partem o vidro ou assim, por isso vai dar ao mesmo!"
Reflexão: "Ah, ok... assim sendo, fico muito mais descansada!! Até vou passar a deixar a porta destrancada de noite, como tu fazes... não vão os correios lembrar-se de mandar alguma encomenda de madrugada!"
Aventura 3
Numa noite, estava eu a arrumar a cozinha, chega a D. a casa. Senta-se, como habitualmente, à entrada da porta da cozinha, que dá para o pátio, a fumar um cigarro. Já falei por aqui da nossa vizinha gatinha, a Beebee, que gosta mais de estar no nosso quintal do que no dos donos. Aliás, a gata está sempre a dormir no nosso quintal, de manhã à noite.
Ora, como me tinha sobrado um bocadinho de gordura da carne do jantar, decidi ir dá-la à Beebee, porque achei que mais valia isso do que deitar fora. Assim que me dirijo ao pátio e a D. percebe o que eu ia fazer, agarra-me na mão e empurra-me para dentro, dizendo-me de olhos arregalados: "Não! Não podes dar-lhe comida!"
Eu vou ser honesta: pensei que ela estava a censurar-me por dar gordura ao animal. Quase me senti mal por o fazer, mas era só um bocadinho e estou certa de que ela ia gostar. Nisto, a D. completa o seu raciocínio:
"Não podes mesmo dar-lhe comida, senão então aí é que ela não sai mais da nossa porta!"
Ah, bom... e isso claramente é uma questão de segurança nacional.
Aventura 4
Um destes dias estávamos na cozinha a conversar, quando ela avistou uma aranha gigante num canto, no tecto. Olhou para mim e disse prontamente: "eu sei que tens aracnofobia... não te preocupes, eu trato dela!" Subiu imediatamente para uma cadeira, descalçou um dos ténis e matou a aranha com ele. Naquele momento, e embora eu não goste que se matem as pobres, eu olhava para a D. como se fosse uma mulher com super-poderes. Ainda estava a elogiar a sua façanha quando a vejo dirigir-se com esse mesmo ténis ao lava-loiça. Pensei: "não, como é óbvio ela não vai fazer o que eu penso que...", enquanto a observava enfiar o bendito sapato dentro do sítio onde eu lavo a minha loiça, e lavar tranquilamente a sola, como se nada fosse... Escusado será dizer que assim que a apanhei de costas fui fazer uso da lixívia...