domingo, 12 de outubro de 2014

O acto de despojar.

[Sentada no pub mais próximo de casa. A beber um single expresso, ainda que toda a ambiência provoque uma vontade estranha de beber uma cerveja, em seu lugar. O céu lá fora arrasta-se lentamente para um indescritivelmente bonito tom rosado. O calor acolhedor do pub e as suas luzes amareladas tornam mais fácil a instrospecção.]

Hoje senti saudades... Mas foram saudades sem lágrimas. Saudades com um sorriso (não conhecia estas).
Saudades de criança marota, que foi espreitar as prendas do Pai Natal debaixo da cama dos pais.
Saudades de quem sabe o que de bom tem, à sua espera. No seu regresso. Que afinal não se perdeu, como o coração primeiro achou.
Esperam-me coisas amargas, também. No que diz respeito ao trabalho, pelo menos, não são risonhas as expectativas em Portugal, como todo o mundo sabe.
E no entanto... É estranho. Quando me deixo de fantasias e encaro as perspectivas pelo que elas são, consigo, apesar disso, sentir uma paz imensa. Abraçando o bom e encarando o mau de frente.

As saudades que me acordaram hoje foram dos meus amigos. Recordei os abraços sinceros com que me despedi de alguns deles. Os abraços inesperados (recordo, até, um beijo no ombro) com que outros se despediram de mim. Recordo a gargalhada fácil e tantas vezes colectiva. A facilidade com que as conversas se entornam sobre a mesa. A ternura dos olhares cúmplices. Colecções que se vão fazendo ao longo dos anos e que são tão preciosas.

A lucidez das coisas é esta: descobri muita coisa, com o facto de ter vindo para aqui. Agora que me afastei e tomei uma perspectiva mais afastada, neutra. Conclusões que não conseguia tirar enquanto lá estava.
É como se o acto de me despojar, através da distância, permitisse que o azeite viesse ao de cima, por entre a água, tornando claro aquilo que já existia e que importa, separando-o do que não me faz sentido.
Despojei-me de tanto. E agora vejo como precisava disso. E de poder sentir saudades.

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