[Sentada no pub mais próximo de casa. A beber um single expresso, ainda que toda a
ambiência provoque uma vontade estranha de beber uma cerveja, em seu lugar. O céu lá
fora arrasta-se lentamente para um indescritivelmente bonito tom rosado. O calor acolhedor do pub e as suas luzes amareladas tornam
mais fácil a instrospecção.]
Hoje senti saudades... Mas foram saudades sem lágrimas.
Saudades com um sorriso (não conhecia estas).
Saudades de criança marota, que foi espreitar as prendas do
Pai Natal debaixo da cama dos pais.
Saudades de quem sabe o que de bom tem, à sua espera. No seu
regresso. Que afinal não se perdeu, como o coração primeiro achou.
Esperam-me coisas amargas, também. No que diz respeito ao
trabalho, pelo menos, não são risonhas as expectativas em Portugal, como todo o
mundo sabe.
E no entanto... É estranho. Quando me deixo de fantasias e
encaro as perspectivas pelo que elas são, consigo, apesar disso, sentir uma paz
imensa. Abraçando o bom e encarando o mau de frente.
As saudades que me acordaram hoje foram dos meus amigos.
Recordei os abraços sinceros com que me despedi de alguns deles. Os abraços
inesperados (recordo, até, um beijo no ombro) com que outros se despediram de
mim. Recordo a gargalhada fácil e tantas vezes colectiva. A facilidade com que
as conversas se entornam sobre a mesa. A ternura dos olhares cúmplices.
Colecções que se vão fazendo ao longo dos anos e que são tão preciosas.
A lucidez das coisas é esta: descobri muita coisa, com o facto de
ter vindo para aqui. Agora que me afastei e tomei uma perspectiva mais afastada, neutra. Conclusões que não conseguia tirar enquanto lá estava.
É como se o acto de me despojar, através da distância, permitisse que o azeite viesse ao de cima, por entre a água, tornando
claro aquilo que já existia e que importa, separando-o do que não me faz
sentido.
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