Saí tantos dias porta fora, carregando a minha pesada bicicleta velha. Apanhei tanta chuva, vi tão poucas vezes o sol.... aquela ilha tornou-me na versão mais branca de mim que alguma vez existiu!
A minha casa... Jesus, era uma absoluta loucura! Chegámos a ser 8, numa casa podre e descuidada. Era um luxo, chegar ao fim do dia e ter uma frigideira limpa para cozinhar. E, descobri tarde demais, havia escolhido o paraíso das aranhas.
Demorei tanto para me habituar. Para parar de chorar. Foi de longe a maior prova que já me coloquei a mim mesma.
Senti-me sozinha durante muito tempo. Isto apesar de ter encontrado pessoas fantásticas desde o primeiro dia, que me orientaram, cuidaram. Tive as pessoas suficientes para nunca me perder. Mentira, perdi-me muito. De riso, de encanto, de curiosidade.
Mas houve sempre espaço para estar só. Tão só que por vezes caminhava até ao centro da cidade, em direcção à segunda rua mais movimentada do país, para sentir a presença de pessoas. Ainda que não fossem minhas, que não me fossem nada. Mas eu ansiava por não estar sozinha.
Lembro-me da primeira vez que alguém me tocou, desde que lá cheguei; devia ter passado pouco mais de um mês. Um housemate colocou uma mão no meu ombro, carinhosamente, enquanto eu lavava a loiça. Eu dei um salto. Já não sabia o que era.
Conhecendo-me como conheço, hoje sei que foi um acto extremo. Sei que foi um pouco louco. Pus-me completamente em cheque. A zona de conforto foi borda fora.
E mesmo assim, reparo hoje, fui tão feliz.
Tenho voltado atrás, revendo fotografias e histórias, relendo histórias, para me inteirar dos ingredientes desta alegria. Porque é ali, digo a mim mesma, que está o segredo. Se eu puder compreender este fenómeno, poderei replicá-lo. Fazer acontecer. Só há um ingrediente a entrar-me pelos olhos adentro.
A coragem. A coragem que eu tive, e como ela me encheu.
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