sábado, 4 de outubro de 2014

Dar sentido aos passos. Dia 35

Quem me conhece, sabe bem como as minhas emoções são saltitonas. Intensas, flutuantes, arrebatadoras. Para o bem e para mal, quer dos outros quer meu...
Tenho vindo a aprender a viver com isso. Hoje, quando uma emoção realmente boa me assalta, espero para ver. Já não me permito entrar em histerias próprias de princesa da Disney, crédula de que esta onda boa veio para ficar. Sei que estou de "óculos cor-de-rosa" postos...
Da mesma forma, quando me vejo ir irremediavelmente abaixo, respiro fundo e espero. Espero porque sei que o desespero que estou a sentir está ampliado, exagerado pela minha forma teatral de ver a vida. E que tal como a onda boa, não veio para ficar.
Por isso, ontem, depois de ter tido provavelmente o dia mais feliz desde que estou aqui, "(...) já ouvi tantas cantigas que deixei de acreditar..."... e por isso esperei.
Mas o sentimento de paz que estou a experimentar hoje é diferente. Rasga mais fundo, vai realmente até à alma. E não é uma emoção de picos, não é uma exaltação do ser. Parece-se mais com um barco a aproximar-se lentamente do abraço do porto. Aquele agarrar lento, aquele fluir natural.
Não é um momento de glória em si próprio. É uma onda a lamber os pés. Bonança? Um acordar soalheiro?
Devia contextualizar esta poesia toda, se calhar...
Ontem à tarde fui com a M. até Chorlton, um bairro muito engraçado, onde se passeia a classe média alta de Manchester. Cheia de pequenas esplanadas, padarias, pubs modernos e casas de chá. Foi uma boa caminhada, talvez meia hora, e fomos sentar-nos numa esplanada a beber um copo de vinho. Não nos faltou conversa toda a tarde, o que é fantástico... falámos de tudo um pouco - coisas pessoais, temas mais existencialistas, diferenças culturais, sonhos...
Já ao chegar da noitinha, o frio empurrou-nos para dentro, onde continuámos o vinho e a boa conversa. Entretanto chegou a F. - a italiana que vive na minha casa, que também estava a precisar de companhia e de vinho.
Alegres e menineiras, lá saímos a custo daquele espaço simpático com boa música e energia, para irmos em busca de um take-away para encher a barriga.
Acabámos num take-away de kebabs e afins, onde comi um kebab absolutamente mais picante do que aquilo que seria habitual para mim, mas que não obstante me soube bem!
Entretanto juntou-se a nós o simpático G., também ele já com umas cervejas a contribuir para o seu bom humor.
Quando terminámos de comer fomos para outro pub, para nos refugiarmos do frio. Conversámos mais um bom bocado, e voltámos para casa de táxi.
Quando chegámos a casa demos por nós a comer gelados e a conversar na rua com os restantes inquilinos. Foi uma óptima surpresa, conhecer realmente melhor os colegas de casa - até mesmo P., o inglês que não fala muito. Obviamente que o vinho tinto me tinha soltado a língua, tornando mais fácil o convívio. Mas foi muito engraçado dar sentido a este convívio, finalmente. Com menos pressões e menos receio de dizer algo errado.
Sentir alguma pertença, fosse nas partilhas íntimas e empáticas com a M., ou no braço da F. agarrado a mim, protegendo-se do frio, ou no sorriso cúmplice do G. ou até mesmo na atenção dos flatmates enquanto falo um pouco de mim... foram pequenos gestos que trouxeram sentido aos passos que dei até chegar aqui, a Manchester.
Não vim para ficar, mas espero, com todo o coração, deixar um bocadinho de mim nas pessoas com quem me cruzar aqui.

1 comentário:

  1. O que aqui hoje li, falou-me:
    - De conquistas que se vão realizando.
    - De emoções que se aprendem a controlar.
    - De dias felizes que, afinal, existem.
    - Da paz que, por momentos, acontece.
    - De espaços inesperadamente acolhedores, num qualquer lugar do mundo.
    - Das "letras" que se juntam a N, num abraço colorido de diferenças, quem sabe iguais nos anseios, nos silêncios, nos quereres.
    - Do desejo de deixar uma pegada, que aos poucos se desenha, em muitos corações que habitam nessa cidade.
    - Da urgência de erguer a minha taça de vinho e brindar aos 35 passos do teu percurso.

    Uma Mãe a caminho da tranquilidade

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