segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Parabéns. a. mim.

Faz hoje um mês que aqui cheguei. Ou dizendo-o de uma forma mais agradável: já  passou um mês. Já só faltam 5 iguais.
Apesar de ter sido um dos meses mais duros de sempre, sou forçada a admitir o óbvio, que toda a gente insistiu em realçar quando vim: passou a voar.
E o G., sem ter noção disso, levou-me a jantar para festejar. Mandou-me mensagem depois do trabalho para irmos beber uma cerveja, e acabámos a jantar no sushi. Foi um bocado muito porreiro, conversámos imenso e enchemos a barriga com uma sopa japonesa super rica, e sushi bastante razoável. Bebemos umas cervejas a acompanhar, apanhámos o autocarro e viemos para casa.
Sinto-me muito orgulhosa de mim. Porque nunca pensei que seria capaz de aguentar isto, agora que sei o quanto custa. Sinto-me orgulhosa porque sei que estou a ser forte. Sei que estou a passar por imensa coisa ao mesmo tempo, mas também tenho a consciência serena de que o pior já terá provavelmente passado.
O choque de aterrar aqui e de me desligar de tudo o que fazia de mim a Nani que todos conhecem - as raízes, os hábitos, a família, os amigos, os lugares comuns e as rotinas - foi sem dúvida difícil.
Mas ainda aqui estou, de pé como uma árvore... Sim, talvez a melhor metáfora seja uma cana de bambu, porque eu abanei... ah, se abanei, com a tempestade, não vou mentir! (também foi o amor que não me deixou descolar as raízes...)
Mas agora que o temporal amainou, deixo-me ficar a saborear a água através da terra, a recolher silenciosamente o produto da minha perseverança. Sabendo que a mim se deve, este sabor na boca. E esse sentimento... bom, esse eu não conhecia.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Segunda-feira. Um monte de trabalho e a operação canja.

Hoje foi dia de imenso trabalho. Mas não daquele que dá gosto... foi antes daquele que nos dá dores de cabeça!
Eu não me considero uma pessoa muito inteligente. Tão-pouco me considero organizada. Talvez por isso, gosto de pegar numa tarefa e levá-la de fio a pavio - concentrar-me numa só coisa e fazê-la bem. Como diz o meu pai, "servidor dedicado"!
Acontece que a supervisora que me calhou é a total antítese disto. Está metida em vários projectos gigantes - investigações, auditorias e candidaturas a financiamentos pelo serviço de saúde - em simultâneo, com diferentes prazos e exigências. Resultado: vou ao seu gabinete, combinamos que vou fazer uma coisa; quando me sento frente ao meu computador já tenho um email dela a pedir-me para fazer outra coisa.
Da mesma forma, passados três dias de eu ter cumprido uma tarefa que ela me pediu (e que me levou uma tarde ou um dia a fazer), manda-me um email a dizer que sabe que eu já fiz isso, mas precisa que eu faça outra vez... ou porque não encontra o email, ou porque precisa daquilo mas com umas ligeiras diferenças (ou porque não lhe apetece procurar).
Ou seja: quando estou a meio de uma tarefa, que me demorou tempo e neurónios a perceber, a dominar e a realizar, ela lembra-se que precisa de qualquer coisa noutro projecto diferente, para o qual já trabalhei a semana passada e com o qual já não estou familiarizada - estás a ver essa pesquisa que fizeste há duas semanas? Preciso que a faças outra vez! Mas desta vez em cor-de-laranja!
Puf...
E aparte deste dia terrífico, cheguei a casa e decidi concentrar-me na operação canja - ressuscitar os sabores caseiros. Escusado será dizer que não ressuscitei coisíssima nenhuma - até porque coloquei aquilo que eu achava ser caldo de galinha, mas que deixou a sopa castanha e sem sal.
Enfim, não obstante a minha falta de inteligência, o facto é que não há canja como as do papá e da mamã, e comida em casa -, mas esta lá aconchegou o estômago e entreteve a cabeça... E quem ganhou com isto foi a gata Beebee, que teve direito à pele do frango (mas não digam nada à rapariga francesa, que ela acha que não se pode dar comida à gata porque senão ela não nos sai da porta... oui oui, quèlle probleme).
Ao menos desta vez consegui levar uma missão do princípio ao fim...!

domingo, 21 de setembro de 2014

Domingo. day 22

Hoje saboreei o luxo da semana: fui ao centro para ver o novo filme do Woody Allen, com o Colin Firth e a Emma Stone.
Além disso, fartei-me de caminhar e de ver roupa - H&M, Zara, Marks&Spencer...
A caminho do cinema, tropecei numa feira de comida à beira do Town Hall, onde petisquei e me misturei por entre as pessoas.
Um bom filme é sempre uma forma agradável de nos alhearmos do mundo por um bocadinho, e neste aspecto, este cumpriu a sua função.
Agora à noite, preparei um jantar leve ao estilo da minha casa - sopa, fruta e torradas -, para receber a nova temporada de Downton Abbey.
Um dia agradável. E quando dou por mim, já vou a caminho do primeiro mês. Estou a controlar mais ou menos isto, penso eu.
E acho que estou a mudar, como pessoa... sinto isso, como um formigueiro leve que vem de dentro. A segurança parece estar a consolidar-se. Ainda que não esteja no meu meio, ou naquele que sinto ser "o meu lugar" - mas sinto que estou a consolidar experiências aqui num meio que me é quase "selvagem", para depois aplicar ao meu contexto real. Sinto uma capa a formar-se. E sinto a minha vontade a querer afirmar-se devagarinho.
Afinal, era também essa a intenção. Mas esta conversa fica para outro dia, que a série ainda não acabou!


Parêntesis sobre o fim-de-semana

(já cá estou há 23 dias...!)

Ontem dei por mim a curtir a moleza. Dormi até tarde, tive dificuldade em motivar-me para fazer as tarefas de casa.
A conselho dos pais, lá saí para o frio da rua (ontem estava um dia cinzento), e fui fazer uma caminhada pelo parque. Revigorou-me, o fresco na cara, as crianças com energia para dar e vender e brincarem no jardim. E os cães a correrem, livres e felizes, parque fora. Tocou num "botão" antigo - cães, um parque, ar livre, passear...
Bem, palermices à parte, depois disso fui a um pub aqui perto para satisfazer as minhas necessidades diárias de cafeína, fui às compras e... passei o resto da tarde/noite a cozinhar.
Como diz a mãe, cozinhar pode ser uma terapia. E assim foi a minha terapia: transformar 500 gr de carne picada em hamburguer para o jantar e bolonhesa para as próximas refeições.
Na fotografia figura uma coisa que encontrei no parque enquanto caminhava, e que me fez pensar, por segundos, que tinha andado tanto que tinha chegado à porta de casa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Resumo dos dias (e vão 21)

Têm sido dias mais vazios de escrita. Mais ocupados.
Dias de algum sol, o que sempre dá alento. Descubro que o tempo se inverteu - em Portugal, o sol fugiu e deu lugar a um temporal e a imensa chuva. Por aqui, invulgares dias de luz e temperaturas amenas, que levam as inglesas a despirem-se todas. Eu cá acho que também não é caso para perna à mostra e chinelo de enfiar o dedo, mas presumo que para elas isto seja como estar nos trópicos.
Tenho aproveitado as horas de almoço para ler e para passear. Nos primeiros dias ia a correr comer, e voltava para dentro, como via o resto das pessoas fazerem. Mas de facto eu não tenho feitio para isso - quando fazia isso, não produzia nada de jeito de tarde... Agora vou com mais ânimo e concentro-me melhor.
Na quinta-feira fui espreitar um café de que já me tinham falado muito bem - o Small World, uma espécie de pequeno restaurante da comunidade internacional, com comida mais próxima do caseiro e algumas coisas diferentes.
Aquilo de que mais gostei foi do pequeno jardim/esplanada, como boa portuguesinha, sempre a pensar no ar livre... claro que assim que o frio chegar deixo de pensar assim, mas pronto...
E hoje, sexta-feira, o meu dia livre, começou com panquecas escocesas pré-feitas do Marks & Spencer - bastante boas! Depois fui até ao centro, persegui um empregado da Primark até ele me conseguir umas sabrinas de 4 libras do meu tamanho, e andei a descobrir a H&M - com coisas bem mais giras do que em Portugal!
Amanhã adivinha-se um dia de arrumações, limpezas e talvez cozinhas. Tenho o quarto numa desorganização crescente, já começa a parecer-se com o meu verdadeiro quarto...
Mas no domingo estou a pensar ir ver o novo filme do Woody Allen com o Colin Firth e a Emma Stone. Vai ser o luxo da semana!
O coração mantém-se mais aquietado. Acho que talvez este jogo de "faz-de-conta" seja a melhor forma de fintar as dificuldades. Porque as saudades estão lá, e vão crescendo, como uma bola de cotão que se vai acumulando e que daqui a nada entope qualquer coisa. Mas para isso servirá um ocasional fim-de-semana de ida a casa, e a visita do companheiro (e talvez dos pais!). Para aspirar essa bola de cotão, ainda que comece a formar-se outra logo a seguir.





terça-feira, 16 de setembro de 2014

Um novo dia

Hoje voltei a fazer um pouco de clínica. E o meu coração voltou a respirar um bocadinho.
Troquei os computadores por pessoas reais. E soube bem. Deparei-me com situações difíceis e soube lidar com elas. Senti-me orgulhosa de mim!
Depois cheguei a casa e tinha uma encomenda. O cheiro da minha casa saía de cada poro da pequena caixa. Nela vinham mimos, beijos, sorrisos.
Aproveitando isso, enrolei o cabelo, pus um brinco novo, enrolei o lenço novo ao pescoço e fui às compras, de cabeça erguida. Quis acreditar que o cheiro do meu lar se me ia colar à pele e acompanhar-me até ao Aldi.
A caminho de casa, dei por mim com um vaso de coentros debaixo do braço, rua fora, a pensar na vida. Agarrei-me ao vaso com força como se fosse, ele próprio, a sensação boa que me vinha a dançar no peito. Quem me dera não a largar mais.

domingo, 14 de setembro de 2014

Dia 16. Resumo.

Verbo: recomeçar. Começar de novo. Todos os dias. Tentar. Fazer com que isto pareça a minha casa. Ilusão de óptica.
(Nuns dias mais fácil. Noutros, nem tanto. Para isso é que existe o chá, o skype e o scrapbooking)
[Start from scratch. Start over. Every day. Try. To make this look like home. Illusion. ]

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Dia 14

Mais um dia de aventuras!
Hoje, não sendo dia de trabalho, foi dia de dormir mais um bocadinho. Não muito, que o despertador interno está activado, e eu não quero que ele se desligue, senão depois no domingo à noite temos petisco.
Ainda pela manhã, recebi um miminho de Portugal! Vinha na forma de um postal lindíssimo (vejam como é lindo!), envolto num envelope cuja cor alegre me fez desde logo saber o remetente. O desenho remete para o "amigo" por quem passo praticamente todos os dias, a caminho do trabalho, e que anda a pastar no relvado por entre as árvores junto à faculdade. As palavras que vinham lá dento devolveram-me a casa, e diminuíram a distância. Em resumo, esta surpresa aqueceu o motor do sorriso, que ficou pronto para se mostrar ao longo do resto do dia.
Saí de casa já tarde, depois de algumas arrumações e de um banho, e fui para o centro - onde me sinto bem, rodeada de gente.
Passei pelo espaço de arte de que falei há dias, o Cornerhouse - único sítio onde até agora consegui beber aquilo que é a verdadeira bica - em matéria de chávena, de quantidade e de sabor. São duas libras e vinte, até dói... mas é realmente uma bica, e o meu coração lisboeta pede!
Depois subi até à Market Street, onde comprei um casaco - a mãe é que tinha razão, a dizer que eu ia ter de fazer uma comprinha! - e um mapa mundo para tapar os buracos da parede...
Fartei-me de passear, até descobri a famosa Catedral, que é realmente bastante bonita. Está rodeada por pubs, que a partir das cinco horas se enchem de ingleses, a beberem as suas pints.
Quando vinha a sair dessa ruela de pubs, de repente oiço uma voz de rua, um autêntico Jamie Cullum! Olho para o lado e vejo um rapaz super novinho com uma guitarra, a encher a rua com a sua voz fantástica. Não resisti a dar-lhe uma moeda e recebi um sorriso de volta. Senti-me quase obrigada a dar algo de volta, por esse bocadinho bom que passei ali a ouvi-lo.
A verdade é que também eu bebi uma pint - em Roma, sê romano!-, algo por acaso! Eu andava danada para comer um bifinho, que o meu lado carnívoro já se andava a ressentir. Descobri um cafezinho francês, com uma esplanada amorosa, chamado Café Rouge. O bife não era a melhor coisa do mundo, mas também era o mais barato de todos... Deu para matar o vício! Bom, e para acompanhar pedi uma cerveja. O empregado perguntou: "pequena ou grande?", e eu apressei-me a responder "pequena!". Bom, não sei o que é que ele interpretou daí, mas trouxe-me uma pint (meio litro) e disse-me "cobrei-te uma pequena mas trouxe-te uma grande...", com um sorriso e um piscar de olho. Eu cá fiquei aflita, porque 1) tinha pouca coisa no estômago, 2) já não bebia desde Portugal, e 3) estava sozinha e teria de ir para casa. Mas bem, fiz o meu melhor por estar à altura da oferta, só bebi quando o bife chegou e fui bebendo aos poucos, enquanto lia o meu livro. Quando me quis levantar as pernas estavam um bocadinho dormentes, mas lá encontraram o caminho para casa...!
Estranho foi só chegar a casa e não estar ninguém - foi tudo sair, é sexta-feira, claro... E depois saber que os meus meninos iam todos sair para o nosso bar favorito de cocktails em Lisboa... foi estranho, não poder ir, estar sozinha em casa... Tive de fazer um esforço para me relembrar de porque é que estou aqui, de que é temporário e de que tenho outras coisas para aproveitar.
Por fim, recebi uma mensagem a dizer "Estamos aqui e fazes aqui muita falta. Isto não é a mesma coisa sem ti. Muitas saudades..."... e o meu coração derreteu-se. E apesar de uma lágrima malandra querer aparecer, o sorriso foi sem dúvida quem ganhou o dia.

 "Ain't no sunshine when she's gone..."






terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dia 11 (porque o dia 10 foi uma trampa)

(Decidi ignorar a descrição do dia 10, porque não havia nada de agradável para contar. Achei melhor assim.)
Hoje tive outro dia bom. Sem razões de maior que o justifiquem, acho eu. Talvez apenas em comparação com o dia de ontem. Talvez porque hoje houve sol. Talvez porque houve passeio à hora de almoço, que sempre arrebita mais do que comer em frente ao ecrã do computador.
Hoje foi dia de correio. Foi dia de passar boas energias, de atirar sorrisos ao papel.
O fim do dia, a chegada a casa foram abençoadas com luz. E por isso foi também dia de ir ao parque que fica mesmo em frente à minha casa, apanhar os últimos raios de sol.
Sentei-me num banco do jardim e fiz o que sei fazer de melhor. Observei.
Aqui as coisas são diferentes. É divertido, isso.
As pessoas deslocam-se até ao parque, para dar aos filhos um pouco de qualidade de vida.
Vemos grupos de mães animadamente à conversa, enquanto os filhos brincam nos baloiços ou correm pela relva. A diferença aqui é que este grupo de mães, sentadas na relva em vez de se sentarem nos bancos, estão tapadas de alto a baixo. Com os seus sáris, com as suas burkhas, deixam ver pouco mais do que os seus olhos pintados. Os seus filhos correm, brincam, andam de bicicleta, não parecendo estar minimamente incomodados com isso. Vendo bem, o elemento estranho ali sou eu! O que eu quero dizer é, o mundo continua a girar...
Aqui vai-se à mesquita em vez da igreja - no meu bairro, pelo menos. Trata-se verdadeiramente de uma zona residencial, tranquila. Vejo um pai a chegar de bicicleta com o filho atrás de si,. Pedalam até ao baloiço que provavelmente é o favorito do mais pequeno. Descem das bicicletas, que abandonam tranquilamente para se entregarem à brincadeira.
O jardim está cheio com os sons de crianças felizes, apenas interrompido pelo som dos pássaros. Para o observador mais distraído, não estamos no meio da cidade. As árvores frondosas e gigantes do parque criam esta ilusão, abafam o som dos carros, deixam apenas lugar para as famílias.
Obrigo-me a respirar fundo, a fechar os olhos e a relaxar. Sinto a cabeça a rodopiar ligeiramente, como se andasse a voar e só agora me atrevesse a poisar, devagarinho.
Quando as pernas pedem para andar, vou às compras, caminho sem pressa. Junto ao parque há um centro de desportos, com ringues onde vários grupos de jovens e homens adultos gastam as últimas energias do dia, a jogar basket e futebol. Por momentos tenho vontade de saltar lá para dentro. Já tenho saudades de praticar desporto.
Há dias em que parece que algo está a mudar dentro de mim. Que começo a entender e a integrar o que estou aqui a fazer. Desejo com todas as forças agarrar-me a essa sensação, para não a perder. Ao entrar na minha rua, passo novamente pelo parque. Volto a olhar para as crianças, abstraídas, felizes. É por isso que estou aqui. Para construir um futuro para mim. No país que me viu crescer.

domingo, 7 de setembro de 2014

Dia 9 - Porquê negar a criança em mim?

Hoje tem sido um dia bom!
Decidi sair para o centro, e ir ao cinema.
Há um edifício grande chamado Cornerhouse (a casa da esquina), onde o lema é art|film|books|food&drink. Junta tudo isto de uma forma moderna, despretensiosa e criativa.
Assim, comecei por beber um expresso no andar de baixo, numa mesa alta virada para a rua, onde terminei de ler uma aventura do Poirot em "A suspeita", de Agatha Christie.
Depois, subi as escadas e fui comer os meus primeiros "Eggs Benedict" de sempre (com um sumo de maçã natural)! Que estavam deliciosos, mas são realmente uma bomba! Quase ouvia a minha mãe a sussurrar - "vais passar o resto da semana a comer só verdes!".
Depois desci as escadas até à cave, onde assisti a um filme despretensioso, divertido e de uma enorme franqueza - "Obvious Child". Fala de uma rapariga muito infantil, apesar dos seus quase 30 anos, que faz de tudo uma brincadeira, até que engravida acidentalmente de uma relação ocasional. Enfim, voltei a ouvir a minha gargalhada, que andava desaparecida, e envolvi-me completamente na história. Devo dizer que adorei as representações, não obstante um final um pouco óbvio.
Para além de tudo disto, vim para casa e ainda dei por mim a dançar no quarto, ouvindo um tema do filme, também chamado "Obvious Child", de Paul Simon. O sorriso voltou, e alguma descontracção também. Dei por mim a pensar nisto tudo.
É curioso como uma aventura destas, de vir para longe de tudo o que me segura e dá alegria, parece agora estar a revelar-se como um desafio do género "reencontrar-me comigo" - mais especificamente, com a pessoa que verdadeiramente sou. Com essa criança de sorriso fácil que deixei de ser.
Isto poderia parecer uma contradição. Vim para longe para crescer! Mas cada um cresce naquilo que precisa de crescer...
E quando penso nas minhas maiores dificuldades, penso que deixei de me rir de mim própria. Como fazia quando era miúda e fazia ou dizia uma patetice qualquer, olhava para a minha irmã a rir-se de boca escancarada e juntava-me a ela nas gargalhadas, ainda que tentasse resistir. Esse acto de deixar de resistir, esse deixar ir...
Deixei de fazer patetices. Deixei de ser eu mesma, como se tivesse de estar sempre contida, sempre séria e crescida. Esqueci-me dessa menina de olho brilhante e sorriso escancarado, que naturalmente atraía as pessoas, porque era genuína. Teci-lhe capas duras, rígidas, inflexíveis. Continuei a andar de passo rápido e não lhe dei a mão, para que me acompanhasse.
Mas agora que penso nisso, como é que podemos rir-nos de nós próprios, se não estivermos confortáveis connosco? E como é que eu posso estar de bem comigo, se não me reconheço? Se de alguma forma me perdi pelo caminho...
Porque no fundo, se nos despirmos de tudo - o nosso lar, a nossa família, as nossas ligações fortes, os nossos hábitos, rotinas e confortos - o que é que nos sobra? Nós mesmos. Vim no fundo em busca dessa menina feliz. É como quando nos sentamos num canto a pensar na asneira que fizemos - sem brinquedos, sem distracções. Temos de nos forçar a olhar para dentro. Não tenho expectativas de regressar uma pessoa completamente diferente - mas tenho a esperança de levar daqui essa porta aberta, para um recomeço.
Porque, não nos enganemos - eu vim à procura de qualquer coisa, não foi?
Hoje encontrei-me com essa menina por um pouco... e soube bem!

Resumindo: este foi um bom dia. E obrigada, Obvious Child, que pareces ter vindo em tão boa hora!

sábado, 6 de setembro de 2014

Dia 8

Gosto muito de acordar, olhar na direcção da janela e perceber, pelo tipo de luz que atravessa as cortinas, se está um dia de sol e de chuva. Enquanto ontem um sol maravilhoso abençoou estas terras, hoje eu abri os olhos e soube desde logo que estava um dia cinzento.
Foi um sábado preguiçoso. Hoje consegui dormir um pouco mais, ao contrário dos outros dias, mas parece que isso não teve um efeito assim tão bom em mim...
Apetecia-me especialmente andar, fazer coisas por aí, não estar parada em casa.
Por isso vesti o impermeável, enfiei os ténis, guardei o chapéu de chuva na mala e desandei, em busca de um sítio que o G. me tinha dito que era muito giro. Uma cidadezinha que fica mesmo colada a Manchester, e que na verdade todos pensam fazer parte desta: Salford. Tinham-me dito que Salford Quays era algo próximo do nosso Parque das Nações, com lojinhas. De maneira que aí fui, na direcção que me tinham indicado, e com uma ajudinha do google maps lá cheguei.
Aquilo que continua a fazer-me imensa confusão é a quase completa ausência de pessoas na rua!! Fiz o percurso de quase dois quilómetros passando talvez por umas 3 pessoas... Tendo em conta que fui aconselhada a não andar em sítios solitários, isto deixa-me quase sem opções!
Enfim, lá encontrei essa zona ribeirinha muito cuidada (embora vazia), cheia de cisnes e outros parentes a varrerem os passeios ou a banharem-se nas águas calmas (como podem ver pela foto, cruzei-me com uma autêntica tropa deles!). Do outro lado, espreitava-me o estádio do Manchester United, a fazer-me lembrar uns quantos amigos que prometeram visita aquando dos jogos.
Foi bom passear e desanuviar a cabeça. Estar sozinha dá-me realmente prazer - comer qualquer coisa na esplanada, a ler o meu livro. Embora, devo acrescentar, hoje não tenha sido totalmente por escolha minha. Mas algo que estou a aprender aqui é que, numa casa cheia de gente, cada um tem os seus timings. E ainda que me apeteça preencher as horas com conversa, tenho de encontrar esse equilíbrio, tão difícil de alcançar.
Estou a pensar ir ao cinema amanhã, para arejar a cabeça. Tenho sentido imensa falta de umas seriezinhas, tenho de me deixar de preguiças e começar a pesquisar pela net...


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Dia 7

 Hoje acordei com força.
Agarrei no Henry (aspirador com carinha), e transformei-me numa verdadeira Spider Terminator.
Aspirei o quarto de alto a baixo. Depois fui às compras, abastecer-me para uns dias.
E depois rumei ao centro, onde comprei umas boas pechinchas - coisas para cozinhar, para limpar, etc.
O meu orgulho é mesmo o meu wok verde (amanhã ponho foto!), e as minhas luzes, que foram o meu luxo, para dar um toque "naninesco" ao quarto. Também fiz finalmente o gostinho à minha mana, e fui à Boots, que realmente tem muita coisa gira.
Quando voltei para casa, limpei o pó aos móveis todos, fiz um belo jantar no meu wok a estrear, e liguei as luzes para parecer que estou nas estrelas.
Não é a minha casa, volto a repetir. Mas está um cantinho engraçado, e já vai tendo a minha cor.
Fiz o melhor que pude para aumentar o meu conforto.
E depois estive à conversa com esta maltinha nova - e boa, parece-me.
A companheira peluda na foto é a Beebee - a gata dos vizinhos, que pelos vistos gosta da energia da nossa casa, porque passa a vida a dormir no nosso quintal. E neste caso, estava também a gostar do cheirinho do salmão que fiz no wok.




Dia 6 - a mudança

As mudanças são sempre complicadas para a nossa cabeça. Quer queiramos quer não, exige aqui uns "curto-circuitos", e dependendo do nosso estado geral, integramo-las melhor ou pior. Para quem conhece a minha cabecinha de alfinete, já pode imaginar...
Digamos que eu andava ansiosa por poder finalmente desfazer as malas - deixar-me desta coisa de abrir e fechar a mala de cada vez que queria uma blusa, um creme ou umas cuecas. Assentar arraiais.
Mas quando chegou a hora de desempacotar, caiu mais uma ficha - "ah pois é, menina, vieste para ficar. Agora aguenta."
O quarto estava desprovido de vida, embora em muito melhores condições do que o anterior.
É muito espaçoso, tem janelas enormes e uma vista para o jardim. Chão de madeira corrida e um chuveiro só para mim, são comodidades que não são fáceis de conseguir. Mas não é a minha casinha, não é? Para além de que isto é o paraíso das aranhas...
Pelas minhas contas, vou passar os próximos meses a conviver com uma espanhola, uma italiana, uma francesa, um inglês e um francês americanado. Ah, e os dois espanhóis que estavam no meu quarto, que são uns queridos e que prometem voltar já amanhã, para conviver. Pois é, estes meninos decidiram mudar-se para irem viver juntos, mas só deviam sair no dia 12... saíram mais cedo daqui por minha causa, para me dar a vez, porque gostaram de mim. Tenho tido mesmo muita sorte com as pessoas que se têm cruzado no meu caminho.
A noite foi complicada - olhamos à volta, sabemos que aquele vai ser o nosso lugar durante algum tempo, mas não vemos nele a nossa cara, o nosso conforto - não reconhecemos o nosso lar, que está lá bem longe, com as pessoas de quem gostamos agarradinhas a ele.
E foi assim que cheguei a Saint Hilda's Street. Meio alegre, meio chorando.

Dia 5

 Por aqui as manhãs têm de começar sempre com um "single expresso to go"... pelo menos as manhãs de trabalho! Descobri que o café do edifício da faculdade ao lado da minha tem esta marca genial, que por acaso combina perfeitamente comigo de manhã... (poucas piadolas, paizinho!)
Foi também dia de experimentar o flapjack, e este era absolutamente delicioso! São uma espécie de barra de cereais mas com aveia e muita manteiga - quase como um crumble compacto! -, e os ingredientes podem ser os mais variados: frutas, chocolate, caramelo... Enfim, uma perdição, mas diga-se de passagem que neste dia estava mesmo a precisar de uma bomba de açúcar...
Por fim, foi também o meu último dia na casa "temporária", pelo que insisti em fazer o jantar para os camaradas da casa - a F., o G. e o R..
Decidi fazer uns bifes de lombo de porco que tinham bom aspecto (fiz-lhes uma marinada com cerveja), e a minha esmagada de batata doce salteada com alho, à qual adicionei cogumelos.
Bom, a esmagada foi um sucesso. Já os bifes... enfim, a carne não é o ponto forte de Inglaterra. Está visto que no Natal vou para aí sedenta de uns bifinhos.
Apesar de tudo, foi uma noite agradável. Tenho pena de me despedir dos meus colegas, que são uns porreiros. E também foram muitos os nervos e a ansiedade por me mudar para a casa nova. Agora que já me estava a habituar, começa tudo de novo!

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dia 4

Hoje foi dia de ir ao hospital, de ir fazer mais compras e de jantar com os amigos.
Foi a minha primeira ida ao hospital onde (supostamente) também irei trabalhar: aquilo a que os ingleses chamam uma Unidade Mãe e Bebé. Demorei quase uma hora a chegar lá (o autocarro dá muitas voltas!), passando pela zona supostamente terrível, Moss Side. A conclusão é que que não vi nada de especial... depois de ter escondido o relógio e tapado o fio do pescoço, apercebi-me de que estava a ser tola quando vi velhotas e trabalhadores e crianças como em todos os outros lugares...
Depois houve jantar aqui em casa, feito pelo G., que tinha cá a irmã e a sobrinha bebé a visitá-los: frango na caçarola com tomate e especiarias. Eu fiz o arroz, e estava tudo muito bom!
Fui também às compras - comprar carne, que já ando a sentir falta! -, o que me sabe sempre bem.
Hoje vi também um esquilo, por duas vezes (meti na cabeça que era o mesmo): da segunda vez ia à procura dele nas árvores do ajardinado perto da faculdade, e de repente vejo-o mesmo por cima da minha cabeça, a saltar de uma árvore para outra, depois a descer pelo tronco e a ir para o meio da erva.
As fotografias ficam para amanhã, que o sono já é mais do que muito!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Dia 3 - First work day

Hoje foi o primeiro dia de trabalho.
Levantei-me às 8h, apanhei o autocarro, passei no Starbucks a apanhar um double expresso e um croissant, e fui para o Zochonis Building, onde irei passar os próximos meses.

Foi-me atribuído um gabinete, um computador, um cartão de acesso, etc.
Estive com a orientadora, que me deu tarefas para a semana (muitas!), e passei o resto do dia a trabalhar nelas.
O que mais apreciei foi o facto de me ser dada liberdade - desde que as coisas apareçam feitas, não importa muito quanto tempo tiro de almoço, ou se chego mesmo a horas.
É uma responsabilidade, mas acho que me vai ser mais produtivo assim. O almoço foi uma sopa de tomate com pimento vermelho, de beber - das poucas coisas baratas, 99p!
Quando saí do trabalho, passei pela Chinatown (sim, também há aqui!) e fui a um supermercado chinês onde me abasteci para mais uns dias. Hoje foi a primeira vez que cozinhei o meu jantar aqui - nada mau!
Fui ainda àquela que será a minha nova casa a partir de quinta-feira, levar os sacos dos edredons e das capas, para não ter de carregar com tudo no dia das mudanças. Ali, falo em espanhol, para variar um bocadinho!
Depois voltei, fiz o jantar, jantei e tomei um duche.
Estou arrasada, mas chego à conclusão de que é melhor assim... Estando ocupada, não tenho tempo para me sentir triste.
Boa noite!