domingo, 7 de setembro de 2014

Dia 9 - Porquê negar a criança em mim?

Hoje tem sido um dia bom!
Decidi sair para o centro, e ir ao cinema.
Há um edifício grande chamado Cornerhouse (a casa da esquina), onde o lema é art|film|books|food&drink. Junta tudo isto de uma forma moderna, despretensiosa e criativa.
Assim, comecei por beber um expresso no andar de baixo, numa mesa alta virada para a rua, onde terminei de ler uma aventura do Poirot em "A suspeita", de Agatha Christie.
Depois, subi as escadas e fui comer os meus primeiros "Eggs Benedict" de sempre (com um sumo de maçã natural)! Que estavam deliciosos, mas são realmente uma bomba! Quase ouvia a minha mãe a sussurrar - "vais passar o resto da semana a comer só verdes!".
Depois desci as escadas até à cave, onde assisti a um filme despretensioso, divertido e de uma enorme franqueza - "Obvious Child". Fala de uma rapariga muito infantil, apesar dos seus quase 30 anos, que faz de tudo uma brincadeira, até que engravida acidentalmente de uma relação ocasional. Enfim, voltei a ouvir a minha gargalhada, que andava desaparecida, e envolvi-me completamente na história. Devo dizer que adorei as representações, não obstante um final um pouco óbvio.
Para além de tudo disto, vim para casa e ainda dei por mim a dançar no quarto, ouvindo um tema do filme, também chamado "Obvious Child", de Paul Simon. O sorriso voltou, e alguma descontracção também. Dei por mim a pensar nisto tudo.
É curioso como uma aventura destas, de vir para longe de tudo o que me segura e dá alegria, parece agora estar a revelar-se como um desafio do género "reencontrar-me comigo" - mais especificamente, com a pessoa que verdadeiramente sou. Com essa criança de sorriso fácil que deixei de ser.
Isto poderia parecer uma contradição. Vim para longe para crescer! Mas cada um cresce naquilo que precisa de crescer...
E quando penso nas minhas maiores dificuldades, penso que deixei de me rir de mim própria. Como fazia quando era miúda e fazia ou dizia uma patetice qualquer, olhava para a minha irmã a rir-se de boca escancarada e juntava-me a ela nas gargalhadas, ainda que tentasse resistir. Esse acto de deixar de resistir, esse deixar ir...
Deixei de fazer patetices. Deixei de ser eu mesma, como se tivesse de estar sempre contida, sempre séria e crescida. Esqueci-me dessa menina de olho brilhante e sorriso escancarado, que naturalmente atraía as pessoas, porque era genuína. Teci-lhe capas duras, rígidas, inflexíveis. Continuei a andar de passo rápido e não lhe dei a mão, para que me acompanhasse.
Mas agora que penso nisso, como é que podemos rir-nos de nós próprios, se não estivermos confortáveis connosco? E como é que eu posso estar de bem comigo, se não me reconheço? Se de alguma forma me perdi pelo caminho...
Porque no fundo, se nos despirmos de tudo - o nosso lar, a nossa família, as nossas ligações fortes, os nossos hábitos, rotinas e confortos - o que é que nos sobra? Nós mesmos. Vim no fundo em busca dessa menina feliz. É como quando nos sentamos num canto a pensar na asneira que fizemos - sem brinquedos, sem distracções. Temos de nos forçar a olhar para dentro. Não tenho expectativas de regressar uma pessoa completamente diferente - mas tenho a esperança de levar daqui essa porta aberta, para um recomeço.
Porque, não nos enganemos - eu vim à procura de qualquer coisa, não foi?
Hoje encontrei-me com essa menina por um pouco... e soube bem!

Resumindo: este foi um bom dia. E obrigada, Obvious Child, que pareces ter vindo em tão boa hora!

3 comentários:

  1. uma estrela pela gargalhada finalmente encontrada.
    uma estrela pala dança que já tinha saudades tuas.
    uma estrela por conseguires ver o sol a brilhar no céu cinzento de Manchester.
    *** pela força que descobres em ti.
    Um obrigada pela força que nos dás.

    De uma mãe agradecida

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  2. Deixa correr o tempo que acabarás por encontrar tudo o que foste procurar, porque todos queremos essa menina feliz de novo.

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  3. :) Feliz por teres tido um dia bom e voltares a reencontrar-te por momentos.
    Esse prato tem um aspeto delicioso... tens que me levar lá.

    Dança, dança muito e solta as gargalhadas...

    Do teu Migui

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