Tenho-me deixado estar ausente, pelo que peço desculpa. Os dias têm sido cheios dessa expressão bonita que é o "lufa-lufa". Por melhores razões nuns dias, por piores razões noutros...
Na semana que passou fui passar o meu aniversário a casa.
Foi muito bonito, e também muito emotivo.
Recordo bem o dia do meu 29º aniversário, no dia 20 de Novembro. Que começou no metro, continuou no aeroporto com uns nervos desgraçados e uma excitação enorme, e se demorou nos braços dos pais e do companheiro à chegada a Lisboa.
O M. faltou mesmo a uma consulta para me esperar. Os pais estavam em êxtase. Foi tudo tão rápido que parece que se esfumou por entre os abraços, os beijinhos e os sorrisos.
Enchi a pança com a comida boa dos pais, que trabalharam num verdadeiro menu ao longo da minha estadia.
O dia do meu aniversário passou com um cozido à portuguesa ao almoço (cheio das coisas que mais adoro), e terminou num italiano despretensioso com óptimas pizzas, rodeada dos que me são do coração - os pais, o companheiro, a mana e o cunhado.
Os dias seguintes foram de azáfama, para ir corrigir a graduação dos óculos (que os computadores de Manchester já andam a estrafalhar os olhos da menina), para visitar o sobrinho recém-nascido, o A. (que é lindo!!), para visitar algumas pessoas, para aterrar na minha cama feita de nuvens e para mergulhar numa noite com os amigos, que foi absolutamente perfeita. Quero demorar-me neste momento: uma mesa cheia de pessoas dos mais diferentes contextos, desde alguém que conheço desde a escola primária até ao G., que conheci aqui mas que se mudou agora para Portugal e fez questão de estar presente; desde seguranças, a jogadores de póquer, a psicólogas, investigadores, bio-tecnólogos e professores, a mesa tinha de tudo um pouco... todos se deram bem, as gargalhadas foram mais que muitas e deu para matar as saudades da pessoa feliz que me sinto na sua presença!
O regresso a Manchester, depois de tantos mimos dos papás, dos amigos (e até do cão) foi, como se esperava, duro. Estava uma noite especialmente fria no domingo, e talvez por isso fiquei doente nessa madrugada. Na segunda-feira ainda fui trabalhar, cheia de dores de garganta e depois até com febre, mas caí à cama durante dois dias, só conseguindo voltar a mexer-me de lá na quinta-feira.
Aqui sim, foi um momento complicado; só sabemos a sorte que tínhamos quando nos vemos sozinhos, com temperatura alta e dores, entre o frio e os calores, ou seja, numa situação de enorme vulnerabilidade e sem ninguém para nos dar um mimo. Há muito que não me ia tanto abaixo, e penso que foi uma mistura de coisas, entre as emoções fortes da ida a casa e o frio imperdoável (ou alguma virose que apanhei). As mudanças têm destas coisas, há sempre dois lados em tudo...
Ora ontem, depois de alguns dias menos felizes, tive uma noite muito alegre! Pela primeira vez fui sair com os meus flatmates, fomos a um clube assistir a um espectáculo audio-visual preparado por um dos flatmates, o E. (francês, recorde-se). Fui eu, o P. (inglês), a F. (italiana) e o G. (um italiano amigo da F., a viver cá temporariamente). Eu sentia-me especialmente bonita, no meu vestido/calção de bolinhas e maquilhada a preceito para a noite inglesa - praticando alguns dos conselhos da mana para uma maquilhagem impecável! Fui bastante elogiada e confesso que me sentia nas nuvens.
Depois de algumas bebidas, fomos juntar-nos ao casal que vivia antes aqui no meu quarto, o J. e a P., num bar onde se fazia o quê... jogava-se ping-pong!!
E acreditem-me, a combinação desta actividade com o ambiente e o estado de espírito de quem já bebeu um bocadinho pode tornar-se especialmente divertida!
No fim da noite, perto das 4, viemos para casa partilhando um táxi (custou menos de 6 libras), e todos fizemos uma ceia antes de ir para a cama (uns comendo brócolos crus e banana, outros torradas e outros ainda pasta com pesto...!)... estávamos todos esfomeados e eu só pensava na minha rica roulote no Infantado!
E foi assim que, sem querer, celebrei o dia exacto dos meus três meses em Manchester. Com pompa e circunstância.
A lisbonner (temporarily) turned into mancunian. Uma lisboeta viaja para Manchester. Sozinha. 6 meses com a rede de segurança ao longe. Decidiu escrever sobre isso, para que o longe se torne perto.
domingo, 30 de novembro de 2014
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Faltam 10 dias. A Florence foi às compras. E recebi um postal!
Não há palavras para descrever como estou feliz. E também admirada. Como o tempo passa a correr!
Ainda ontem saía do avião, de olhos marejados de lágrimas. Parece que foi ontem, quando a solidão me esmagava o peito. Ainda mesmo há pouco, aterrei numa casa onde me sentia miserável. Onde depois fiz amigos, que tornaram a casa menos miserável.
Depois, e logo a seguir, vim para esta casa, onde me senti um pouco melhor. Assim fui conhecendo esta cidade, ao início tão insípida a meus olhos. Fui-me encarregando de ficar a sós com ela, para a conhecer, e deixar que ela me conhecesse a mim (ou fui eu que me fui conhecendo melhor a mim própria?). Aprendi a saborear esses momentos de solidão. A misturar-me na multidão. A resolver os meus assuntos pelas minhas mãos. A ter tempo para mim.
Depois tive a visita do M., e o meu mundo tornou-se ainda mais risonho, as horas mais esguias. Logo a seguir (porque os dias voaram!), ele foi embora e o meu coração partiu-se um bocadinho... mas a recuperação foi mais rápida do que o costume.
E agora, assim num pulinho, já passaram dois meses desde que estou aqui, e estou prestes a ir a casa de fim-de-semana.
Também estou feliz, porque recebi mais um postal da C.. Repetindo a doce piada do esquilo, que me coloriu os olhos nos meus primeiros dias em Manchester, antevi uma colecção de esquilos na parede! Sorri com as suas palavras. Senti-a perto. Senti saudades, das que fazem sorrir.
A caneta entretanto já se vingou nos últimos postais (tenho definitivamente de ir comprar mais... e mais selos), apanhada por esta febre boa da escrita. Já começo a sentir energias bonitas na minha parede!
Ah, E a Florence e eu hoje fomos às compras nocturnas, pela primeira vez (que aqui o sol põe-se às 16h30...)! Já munida das suas luzes, mais parecia uma árvore de Natal, cheia de estilo, a piscar o olho à noite escura. Já se vai mostrando mais segura (ela, e não a condutora!) na estrada. Fomos ao Iceland, o paraíso dos congelados, buscar uma lasanha, e depois pão e eclairs de chocolate do Aldi (surpreendentemente bons!).
E quando chegámos, a Florence e eu ainda tivemos uma prenda: o E., o flatmate francês "emprestadeu-nos" um pannier... será mais fácil irmos às compras da próxima vez. Já estamos quase prontas para fazer disto rotina diária! Só falta que a Florence deixe de enguiçar na terceira mudança, porque a dona ainda não está em forma para estas brincadeiras...!
sábado, 8 de novembro de 2014
Dois meses e continuamos por cá.
Pelo Halloween ofereci-me uma prenda especial - uma bicicleta à qual dei o nome de Florence. É uma bicicleta de 1990, já com uns toques de ferrugem, um selim branco de pele um bocadinho rijo e ligeiramente alta demais para as minhas pernas portuguesas. Não obstante, acho que fazemos uma dupla muito elegante!
O Halloween teve também um lado um bocadinho triste para mim. Uma das minhas maiores amigas fez a sua despedida de solteira no dia 1, em Lisboa. Tive, apesar da distância, o privilégio de assistir a um bocadinho deste dia tão importante para ela através do skype, testemunhando a sua alegria. Revi amigos e troquei sorrisos, mas também caíram lágrimas. Queria estar ali, no meio deles. Queria ajudar a criar aquele vestido de noiva-cadáver com papel higiénico, e contribuir para aquele sorriso... Uma barreira física impedia-me. Mas o meu coração estava lá.
Gostava de conseguir passar a ir trabalhar de bicicleta - iria poupar uns cobres valentes no passe de autocarro, ainda que tivesse de fazer algum investimento - luzes para a bicicleta, calças para proteger da chuva, quem sabe um cestinho... Mas acho que tenho de atingir uma boa forma física primeiro, para não chegar à Faculdade a suar desvairadamente!
No domingo fui mesmo de bicicleta até ao centro, e foi então que uma memória antiga veio até mim.
A memória de mim e do M. a percorrermos as ruas de Barcelona nas nossas bicicletas. Acho que foi nessa ocasião que vesti o meu sorriso mais verdadeiro e sincero. Lembro-me de o M. dizer várias vezes que nunca me tinha visto tão feliz. E estava, de facto.
Ao longo da manhã não me sentia nada confortável, pelo que acabei por sair do trabalho e ir a um walk in centre, uma espécie de posto de saúde para quem não está registado no sistema de saúde de cá (e portanto não tem um médico de família, general practitioner ou GP, como eles chamam). A parte curiosa deste centro é que fica dentro da loja Boots.
Fui vista por um médico que me mediu a febre, examinou garganta e ouvidos, concluindo que devia tratar-se de uma infecção ou fungo na língua, já que não tinha nenhuma outra zona afectada.
Desci com uma receita na mão (sem pagar nada pela consulta), e aviei um xarope antibiótico para a língua na farmácia da Boots.
Felizmente o médico tinha razão; no dia seguinte os altos na língua já não me incomodavam, e a língua foi perdendo a cor verde ao longo dos dias.
Na quinta-feira passei uma das melhores noites desde que estou aqui, apesar de ser uma ocasião menos feliz. A M., que eu conheci na casa para onde fui quando cheguei a Manchester, e que tanto me apoiou quando precisei, estava a fazer um jantar de despedida. No dia seguinte iria para o Peru por 3 meses, cumprindo um sonho que tinha há muito tempo.
Neste jantar conheci os dois franceses que estão a morar agora na casa da M. e do G., bem como um casal de portugueses amigos do G., que têm dois filhos.
Jantámos uma pasta muito boa, conversámos em várias línguas, tivemos fogo de artifício no quintal, rimos bastante, e despedimo-nos desta menina de coração grande. Fiz-lhe um postal que penso que simboliza o quanto ela foi importante para mim, e despedi-me dela com um abraço.
Hoje voltei a ir ao centro de bicicleta, comprei luzes para a bicicleta e as calças para a chuva. Tenho algum medo de estar a gastar demasiado dinheiro com isto, mas a minha esperança é que eu venha a ser capaz de me habituar totalmente à bicicleta. Sei que me iria sentir muito feliz comigo própria, se fosse capaz de o fazer.
Ainda de contar que esta semana estivemos todos juntos, os flatmates, na sala a ver o filme Leon. Foi um momento bom, talvez por ser raro.
E pronto, por hoje acho que é isto. Em resumo, acho que acolhi o mês de Novembro de braços abertos. Já passei a barreira dos dois meses, e continuo forte.
Boa noite, a todos os meus amigos debaixo dos nossos bonitos blue skies. Ainda que não estejam muito azuis hoje, é assim que me recordo deles.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Feeling blue. So make it blue sky.
Mais – estou preguiçosa e friorenta como um gato.
É, por isso, dia de sair do trabalho e ir abastecer a
dispensa – não só de comida para a semana, mas também, e mais importante
neste caso, um saco de maçãs, farinha e açúcar amarelo. Para a terapia.
Depois, é chegar a casa e fazer crumble de maçã, com nota especial para o francês, o E., que um destes dias partilhou heroicamente um dos seus dois crumbles (de compra) comigo. Heroicamente porque ficou sem nenhum, e afirma que podia viver só a comer este doce. Portanto, imaginam o sacrifício.
Depois, é chegar a casa e fazer crumble de maçã, com nota especial para o francês, o E., que um destes dias partilhou heroicamente um dos seus dois crumbles (de compra) comigo. Heroicamente porque ficou sem nenhum, e afirma que podia viver só a comer este doce. Portanto, imaginam o sacrifício.
E depois é momento de um duche e de me preparar uma refeição leve (que não
vou comer no quarto, por maior que seja a tentação) e enfiar-me na cama a
escrever, porque a vontade anda louca. E quando essa fonte secar, cubro a
cabeça com os lençóis e encho-a com as histórias das séries que o papá me tem
mandado, como beijinhos na testa, até adormecer.
Abrace-se a tristeza. Aceite-se que ela está lá, porque está. Mas não se desista.
Ou então: se a vida te dá limões e não te apetece limonada, faz antes um cocktail.
Ou então: se a vida te dá limões e não te apetece limonada, faz antes um cocktail.
domingo, 26 de outubro de 2014
Hoje, este é para o M.
A quem por aqui costuma passar em busca de notícias da Nani, começo por pedir desculpa.
É que sabem, esta foi a semana mais feliz que passei desde que aqui estou. E tal como a esmagadora maioria dos momentos que valem a pena não são captados pelas luzes de uma câmara (nem são colocadas à disposição nas redes sociais), porque o coração está ocupado a sorrir, também este "momento" ficou por captar... porque estava a ser vivido.
Porque o momento foi de saborear. De aproveitar, de esmifrar as horas.
O meu M. veio cá passar uma semana comigo. E só agora, sentada no quarto que voltou a ficar vazio, é que consigo recapitular os dias.
Estou contente comigo, com o percurso que tenho feito até aqui, por várias razões. Porque me adaptei, apesar de não ter sido fácil. Porque estou continuamente a aprender novas formas de me safar sozinha. Estou a escrever um capítulo novo na minha história ao ser capaz de sorrir, ao colo da solidão.
Ah, e também estou contente porque não chorei quando nos despedimos no aeroporto. Porque de resto, não houve nada de difícil em ter-te aqui.
Mas o quarto está triste, M.. Ele aponta o dedo à prateleira desocupada que deixaste, à almofada que perdeu o emprego. Refila das bolachas que deixaste aqui ficar, porque sabe que eu não as vou comer. Queixa-se dos risos que ouviu, das conversas que guardou, e das quais já só sobra o eco.
Os pequenos sinais de que estiveste aqui são pequenos murros no estômago (para o quarto, claro está). Porque podia ter sido tudo um sonho. Mas está ali o boneco que trouxemos do MacDonalds. Aqui estão duas toalhas molhadas no estendal, em vez de uma. Na cómoda ficou a tua lâmina de barbear.
Ele queixa-se que está mais frio aqui dentro, agora. Se formos a ver, até concordo com ele, não sei bem porquê.
Mas fico zangada com este quarto, sabes M.? Porque fui eu que vim para cá. Habitei-o sozinha, adaptei-me, fiz dele meu.
E agora que lhe demos este gostinho dos dias partilhados a dois, ele não se satisfaz com menos. Suponho que o percebo... tal como um corpo se molda a um abraço, também os dias se adaptam ao mimo. Olha, eu cá adaptei-me lindamente. Em poucos dias, concluí que podia viver sempre assim!
Porque viver contigo é tão fácil. Tão fácil que até me deixa tempo de sobra para embirrar contigo e com as tuas manias, e tu com o passatempo divertido de me contrariares...
Agasalho-me bem, aceitando o frio no quarto. Tenho de reconhecer que apesar disso, há uma luz que perdurou aqui, mesmo depois de teres ido.
Uma luz de gratidão, pela mala cheia de amor que me trouxeste, toda ela numa língua que eu entendo. Caíram algumas lágrimas, porque afinal Manchester ainda não mudou assim tanto a Nani! Isso só serve, no entanto, para mostrar que ela não é fácil de dobrar...
Obrigada por me relembrares do porquê de eu estar aqui. E por me recarregares com a recordação e a energia de dias felizes e partilhados, que me deram forças para continuar. Esperança.
É que sabem, esta foi a semana mais feliz que passei desde que aqui estou. E tal como a esmagadora maioria dos momentos que valem a pena não são captados pelas luzes de uma câmara (nem são colocadas à disposição nas redes sociais), porque o coração está ocupado a sorrir, também este "momento" ficou por captar... porque estava a ser vivido.
Porque o momento foi de saborear. De aproveitar, de esmifrar as horas.
O meu M. veio cá passar uma semana comigo. E só agora, sentada no quarto que voltou a ficar vazio, é que consigo recapitular os dias.
Estou contente comigo, com o percurso que tenho feito até aqui, por várias razões. Porque me adaptei, apesar de não ter sido fácil. Porque estou continuamente a aprender novas formas de me safar sozinha. Estou a escrever um capítulo novo na minha história ao ser capaz de sorrir, ao colo da solidão.
Ah, e também estou contente porque não chorei quando nos despedimos no aeroporto. Porque de resto, não houve nada de difícil em ter-te aqui.
Mas o quarto está triste, M.. Ele aponta o dedo à prateleira desocupada que deixaste, à almofada que perdeu o emprego. Refila das bolachas que deixaste aqui ficar, porque sabe que eu não as vou comer. Queixa-se dos risos que ouviu, das conversas que guardou, e das quais já só sobra o eco.
Os pequenos sinais de que estiveste aqui são pequenos murros no estômago (para o quarto, claro está). Porque podia ter sido tudo um sonho. Mas está ali o boneco que trouxemos do MacDonalds. Aqui estão duas toalhas molhadas no estendal, em vez de uma. Na cómoda ficou a tua lâmina de barbear.
Ele queixa-se que está mais frio aqui dentro, agora. Se formos a ver, até concordo com ele, não sei bem porquê.
Mas fico zangada com este quarto, sabes M.? Porque fui eu que vim para cá. Habitei-o sozinha, adaptei-me, fiz dele meu.
E agora que lhe demos este gostinho dos dias partilhados a dois, ele não se satisfaz com menos. Suponho que o percebo... tal como um corpo se molda a um abraço, também os dias se adaptam ao mimo. Olha, eu cá adaptei-me lindamente. Em poucos dias, concluí que podia viver sempre assim!
Porque viver contigo é tão fácil. Tão fácil que até me deixa tempo de sobra para embirrar contigo e com as tuas manias, e tu com o passatempo divertido de me contrariares...
Agasalho-me bem, aceitando o frio no quarto. Tenho de reconhecer que apesar disso, há uma luz que perdurou aqui, mesmo depois de teres ido.
Uma luz de gratidão, pela mala cheia de amor que me trouxeste, toda ela numa língua que eu entendo. Caíram algumas lágrimas, porque afinal Manchester ainda não mudou assim tanto a Nani! Isso só serve, no entanto, para mostrar que ela não é fácil de dobrar...
Obrigada por me relembrares do porquê de eu estar aqui. E por me recarregares com a recordação e a energia de dias felizes e partilhados, que me deram forças para continuar. Esperança.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
#Coisas que a francesa faz.
Um dia destes, contava à mana as peripécias cá de casa. Ela gostou tanto de ouvir falar da minha flatmate francesa, a D., que achou que era digno de um post só para ela. Assim sendo, venho falar sobre aquela a quem em português poderíamos chamar uma autêntica "personagem"! Senão vejamos:
Aventura número 1.
Uma noite, estava eu com a M., a espanhola, a ver televisão na sala, quando chega a D. do trabalho - ela trabalha num restaurante, no turno da noite. Muito amigavelmente, oferece-nos brownie que trouxe do trabalho. Nós aceitamos. Ela coloca então um saco de plástico de supermercado em cima da mesa. Toda contente, enfio a mão dentro do saco, à procura da embalagem, tupperware, saco de plástico, (qualquer coisa!) que contivesse o sagrado bolinho. Qual não é o meu espanto quando percebo que ela atirou o brownie directamente para dentro do saco (que andou sabe Deus onde, e com sabe Deus o quê lá dentro!!), aos bocados... como se fosse comida de cão.
Claro que depois de lá ter enfiado a mão, era tarde demais para dizer que não me apetecia, que estava de dieta ou qualquer outra justificação extremamente plausível... pelo que sim, comi o mais pequeno pedaço de brownie que consegui encontrar. E a experiência poderia ser descrita como algo próximo da metáfora de um cowboy de calças de ganga, sem roupa interior...
Aventura número 2
A D. veio ter comigo uma destas tardes, com um ar muito solene. Disse-me, no seu inglês cheio de acento afrancesado, que eu não podia fechar a porta de casa à chave. Achei, como em tantas outras situações, que não devia estar a compreendê-la bem. É que sabem, nós temos duas portas para a rua - uma primeira porta de vidro, e uma segunda porta que dá para o interior da casa. Ora, a porta interior não pode ser trancada, porque caso seja, não se consegue abrir por fora. Assim, só resta a porta exterior de vidro, para dar ALGUMA segurança a quem lá está dentro.
Ora, ela dizia-me que não se podia fechar a porta exterior, a única porta que se pode fechar! Por fim, quando tive a certeza de que estávamos a falar da mesma porta, perguntei-lhe porque raio é que não se podia fechar. Ela respondeu-me, muito séria: "Porque imagina que recebes alguma encomenda. Assim eles podem abrir a porta e deixar-te a encomenda do lado de dentro. Escusas de ter de a ir levantar aos correios...". Vou ser sincera, isto não me faz muito sentido, não só porque ela entra de tarde (ou seja, tem a manhã para receber a encomenda ou para a ir levantar), mas também porque os horários dos correios aqui são extremamente flexíveis (até ao sábado estão abertos) e porque está quase sempre alguém em casa para atender a porta...
Mas mesmo assim, tentei explicar-lhe o meu ponto de vista: "Mas assim ficamos com as portas todas praticamente abertas, só no trinco! Isso não faz muito sentido, assim quase qualquer pessoa pode entrar!". Ela olha para mim, como se tivesse a solução na ponta da língua, e diz-me num tom muito reconfortante.: "Ah, não te preocupes! Se eles quiserem entrar entram, de qualquer maneira! Se quiserem realmente entrar arranjam maneira, partem o vidro ou assim, por isso vai dar ao mesmo!"
Reflexão: "Ah, ok... assim sendo, fico muito mais descansada!! Até vou passar a deixar a porta destrancada de noite, como tu fazes... não vão os correios lembrar-se de mandar alguma encomenda de madrugada!"
Aventura 3
Numa noite, estava eu a arrumar a cozinha, chega a D. a casa. Senta-se, como habitualmente, à entrada da porta da cozinha, que dá para o pátio, a fumar um cigarro. Já falei por aqui da nossa vizinha gatinha, a Beebee, que gosta mais de estar no nosso quintal do que no dos donos. Aliás, a gata está sempre a dormir no nosso quintal, de manhã à noite.
Ora, como me tinha sobrado um bocadinho de gordura da carne do jantar, decidi ir dá-la à Beebee, porque achei que mais valia isso do que deitar fora. Assim que me dirijo ao pátio e a D. percebe o que eu ia fazer, agarra-me na mão e empurra-me para dentro, dizendo-me de olhos arregalados: "Não! Não podes dar-lhe comida!"
Eu vou ser honesta: pensei que ela estava a censurar-me por dar gordura ao animal. Quase me senti mal por o fazer, mas era só um bocadinho e estou certa de que ela ia gostar. Nisto, a D. completa o seu raciocínio:
"Não podes mesmo dar-lhe comida, senão então aí é que ela não sai mais da nossa porta!"
Ah, bom... e isso claramente é uma questão de segurança nacional.
Aventura 4
Um destes dias estávamos na cozinha a conversar, quando ela avistou uma aranha gigante num canto, no tecto. Olhou para mim e disse prontamente: "eu sei que tens aracnofobia... não te preocupes, eu trato dela!" Subiu imediatamente para uma cadeira, descalçou um dos ténis e matou a aranha com ele. Naquele momento, e embora eu não goste que se matem as pobres, eu olhava para a D. como se fosse uma mulher com super-poderes. Ainda estava a elogiar a sua façanha quando a vejo dirigir-se com esse mesmo ténis ao lava-loiça. Pensei: "não, como é óbvio ela não vai fazer o que eu penso que...", enquanto a observava enfiar o bendito sapato dentro do sítio onde eu lavo a minha loiça, e lavar tranquilamente a sola, como se nada fosse... Escusado será dizer que assim que a apanhei de costas fui fazer uso da lixívia...
Aventura número 1.
Uma noite, estava eu com a M., a espanhola, a ver televisão na sala, quando chega a D. do trabalho - ela trabalha num restaurante, no turno da noite. Muito amigavelmente, oferece-nos brownie que trouxe do trabalho. Nós aceitamos. Ela coloca então um saco de plástico de supermercado em cima da mesa. Toda contente, enfio a mão dentro do saco, à procura da embalagem, tupperware, saco de plástico, (qualquer coisa!) que contivesse o sagrado bolinho. Qual não é o meu espanto quando percebo que ela atirou o brownie directamente para dentro do saco (que andou sabe Deus onde, e com sabe Deus o quê lá dentro!!), aos bocados... como se fosse comida de cão.
Claro que depois de lá ter enfiado a mão, era tarde demais para dizer que não me apetecia, que estava de dieta ou qualquer outra justificação extremamente plausível... pelo que sim, comi o mais pequeno pedaço de brownie que consegui encontrar. E a experiência poderia ser descrita como algo próximo da metáfora de um cowboy de calças de ganga, sem roupa interior...
Aventura número 2
A D. veio ter comigo uma destas tardes, com um ar muito solene. Disse-me, no seu inglês cheio de acento afrancesado, que eu não podia fechar a porta de casa à chave. Achei, como em tantas outras situações, que não devia estar a compreendê-la bem. É que sabem, nós temos duas portas para a rua - uma primeira porta de vidro, e uma segunda porta que dá para o interior da casa. Ora, a porta interior não pode ser trancada, porque caso seja, não se consegue abrir por fora. Assim, só resta a porta exterior de vidro, para dar ALGUMA segurança a quem lá está dentro.
Ora, ela dizia-me que não se podia fechar a porta exterior, a única porta que se pode fechar! Por fim, quando tive a certeza de que estávamos a falar da mesma porta, perguntei-lhe porque raio é que não se podia fechar. Ela respondeu-me, muito séria: "Porque imagina que recebes alguma encomenda. Assim eles podem abrir a porta e deixar-te a encomenda do lado de dentro. Escusas de ter de a ir levantar aos correios...". Vou ser sincera, isto não me faz muito sentido, não só porque ela entra de tarde (ou seja, tem a manhã para receber a encomenda ou para a ir levantar), mas também porque os horários dos correios aqui são extremamente flexíveis (até ao sábado estão abertos) e porque está quase sempre alguém em casa para atender a porta...
Mas mesmo assim, tentei explicar-lhe o meu ponto de vista: "Mas assim ficamos com as portas todas praticamente abertas, só no trinco! Isso não faz muito sentido, assim quase qualquer pessoa pode entrar!". Ela olha para mim, como se tivesse a solução na ponta da língua, e diz-me num tom muito reconfortante.: "Ah, não te preocupes! Se eles quiserem entrar entram, de qualquer maneira! Se quiserem realmente entrar arranjam maneira, partem o vidro ou assim, por isso vai dar ao mesmo!"
Reflexão: "Ah, ok... assim sendo, fico muito mais descansada!! Até vou passar a deixar a porta destrancada de noite, como tu fazes... não vão os correios lembrar-se de mandar alguma encomenda de madrugada!"
Aventura 3
Numa noite, estava eu a arrumar a cozinha, chega a D. a casa. Senta-se, como habitualmente, à entrada da porta da cozinha, que dá para o pátio, a fumar um cigarro. Já falei por aqui da nossa vizinha gatinha, a Beebee, que gosta mais de estar no nosso quintal do que no dos donos. Aliás, a gata está sempre a dormir no nosso quintal, de manhã à noite.
Ora, como me tinha sobrado um bocadinho de gordura da carne do jantar, decidi ir dá-la à Beebee, porque achei que mais valia isso do que deitar fora. Assim que me dirijo ao pátio e a D. percebe o que eu ia fazer, agarra-me na mão e empurra-me para dentro, dizendo-me de olhos arregalados: "Não! Não podes dar-lhe comida!"
Eu vou ser honesta: pensei que ela estava a censurar-me por dar gordura ao animal. Quase me senti mal por o fazer, mas era só um bocadinho e estou certa de que ela ia gostar. Nisto, a D. completa o seu raciocínio:
"Não podes mesmo dar-lhe comida, senão então aí é que ela não sai mais da nossa porta!"
Ah, bom... e isso claramente é uma questão de segurança nacional.
Aventura 4
Um destes dias estávamos na cozinha a conversar, quando ela avistou uma aranha gigante num canto, no tecto. Olhou para mim e disse prontamente: "eu sei que tens aracnofobia... não te preocupes, eu trato dela!" Subiu imediatamente para uma cadeira, descalçou um dos ténis e matou a aranha com ele. Naquele momento, e embora eu não goste que se matem as pobres, eu olhava para a D. como se fosse uma mulher com super-poderes. Ainda estava a elogiar a sua façanha quando a vejo dirigir-se com esse mesmo ténis ao lava-loiça. Pensei: "não, como é óbvio ela não vai fazer o que eu penso que...", enquanto a observava enfiar o bendito sapato dentro do sítio onde eu lavo a minha loiça, e lavar tranquilamente a sola, como se nada fosse... Escusado será dizer que assim que a apanhei de costas fui fazer uso da lixívia...
domingo, 12 de outubro de 2014
O acto de despojar.
[Sentada no pub mais próximo de casa. A beber um single expresso, ainda que toda a
ambiência provoque uma vontade estranha de beber uma cerveja, em seu lugar. O céu lá
fora arrasta-se lentamente para um indescritivelmente bonito tom rosado. O calor acolhedor do pub e as suas luzes amareladas tornam
mais fácil a instrospecção.]
Hoje senti saudades... Mas foram saudades sem lágrimas.
Saudades com um sorriso (não conhecia estas).
Saudades de criança marota, que foi espreitar as prendas do
Pai Natal debaixo da cama dos pais.
Saudades de quem sabe o que de bom tem, à sua espera. No seu
regresso. Que afinal não se perdeu, como o coração primeiro achou.
Esperam-me coisas amargas, também. No que diz respeito ao
trabalho, pelo menos, não são risonhas as expectativas em Portugal, como todo o
mundo sabe.
E no entanto... É estranho. Quando me deixo de fantasias e
encaro as perspectivas pelo que elas são, consigo, apesar disso, sentir uma paz
imensa. Abraçando o bom e encarando o mau de frente.
As saudades que me acordaram hoje foram dos meus amigos.
Recordei os abraços sinceros com que me despedi de alguns deles. Os abraços
inesperados (recordo, até, um beijo no ombro) com que outros se despediram de
mim. Recordo a gargalhada fácil e tantas vezes colectiva. A facilidade com que
as conversas se entornam sobre a mesa. A ternura dos olhares cúmplices.
Colecções que se vão fazendo ao longo dos anos e que são tão preciosas.
A lucidez das coisas é esta: descobri muita coisa, com o facto de
ter vindo para aqui. Agora que me afastei e tomei uma perspectiva mais afastada, neutra. Conclusões que não conseguia tirar enquanto lá estava.
É como se o acto de me despojar, através da distância, permitisse que o azeite viesse ao de cima, por entre a água, tornando
claro aquilo que já existia e que importa, separando-o do que não me faz
sentido.
sábado, 4 de outubro de 2014
Dar sentido aos passos. Dia 35
Quem me conhece, sabe bem como as minhas emoções são saltitonas. Intensas, flutuantes, arrebatadoras. Para o bem e para mal, quer dos outros quer meu...
Tenho vindo a aprender a viver com isso. Hoje, quando uma emoção realmente boa me assalta, espero para ver. Já não me permito entrar em histerias próprias de princesa da Disney, crédula de que esta onda boa veio para ficar. Sei que estou de "óculos cor-de-rosa" postos...
Da mesma forma, quando me vejo ir irremediavelmente abaixo, respiro fundo e espero. Espero porque sei que o desespero que estou a sentir está ampliado, exagerado pela minha forma teatral de ver a vida. E que tal como a onda boa, não veio para ficar.
Por isso, ontem, depois de ter tido provavelmente o dia mais feliz desde que estou aqui, "(...) já ouvi tantas cantigas que deixei de acreditar..."... e por isso esperei.
Mas o sentimento de paz que estou a experimentar hoje é diferente. Rasga mais fundo, vai realmente até à alma. E não é uma emoção de picos, não é uma exaltação do ser. Parece-se mais com um barco a aproximar-se lentamente do abraço do porto. Aquele agarrar lento, aquele fluir natural.
Não é um momento de glória em si próprio. É uma onda a lamber os pés. Bonança? Um acordar soalheiro?
Devia contextualizar esta poesia toda, se calhar...
Ontem à tarde fui com a M. até Chorlton, um bairro muito engraçado, onde se passeia a classe média alta de Manchester. Cheia de pequenas esplanadas, padarias, pubs modernos e casas de chá. Foi uma boa caminhada, talvez meia hora, e fomos sentar-nos numa esplanada a beber um copo de vinho. Não nos faltou conversa toda a tarde, o que é fantástico... falámos de tudo um pouco - coisas pessoais, temas mais existencialistas, diferenças culturais, sonhos...
Já ao chegar da noitinha, o frio empurrou-nos para dentro, onde continuámos o vinho e a boa conversa. Entretanto chegou a F. - a italiana que vive na minha casa, que também estava a precisar de companhia e de vinho.
Alegres e menineiras, lá saímos a custo daquele espaço simpático com boa música e energia, para irmos em busca de um take-away para encher a barriga.
Acabámos num take-away de kebabs e afins, onde comi um kebab absolutamente mais picante do que aquilo que seria habitual para mim, mas que não obstante me soube bem!
Entretanto juntou-se a nós o simpático G., também ele já com umas cervejas a contribuir para o seu bom humor.
Quando terminámos de comer fomos para outro pub, para nos refugiarmos do frio. Conversámos mais um bom bocado, e voltámos para casa de táxi.
Quando chegámos a casa demos por nós a comer gelados e a conversar na rua com os restantes inquilinos. Foi uma óptima surpresa, conhecer realmente melhor os colegas de casa - até mesmo P., o inglês que não fala muito. Obviamente que o vinho tinto me tinha soltado a língua, tornando mais fácil o convívio. Mas foi muito engraçado dar sentido a este convívio, finalmente. Com menos pressões e menos receio de dizer algo errado.
Sentir alguma pertença, fosse nas partilhas íntimas e empáticas com a M., ou no braço da F. agarrado a mim, protegendo-se do frio, ou no sorriso cúmplice do G. ou até mesmo na atenção dos flatmates enquanto falo um pouco de mim... foram pequenos gestos que trouxeram sentido aos passos que dei até chegar aqui, a Manchester.
Não vim para ficar, mas espero, com todo o coração, deixar um bocadinho de mim nas pessoas com quem me cruzar aqui.
Tenho vindo a aprender a viver com isso. Hoje, quando uma emoção realmente boa me assalta, espero para ver. Já não me permito entrar em histerias próprias de princesa da Disney, crédula de que esta onda boa veio para ficar. Sei que estou de "óculos cor-de-rosa" postos...
Da mesma forma, quando me vejo ir irremediavelmente abaixo, respiro fundo e espero. Espero porque sei que o desespero que estou a sentir está ampliado, exagerado pela minha forma teatral de ver a vida. E que tal como a onda boa, não veio para ficar.
Por isso, ontem, depois de ter tido provavelmente o dia mais feliz desde que estou aqui, "(...) já ouvi tantas cantigas que deixei de acreditar..."... e por isso esperei.
Mas o sentimento de paz que estou a experimentar hoje é diferente. Rasga mais fundo, vai realmente até à alma. E não é uma emoção de picos, não é uma exaltação do ser. Parece-se mais com um barco a aproximar-se lentamente do abraço do porto. Aquele agarrar lento, aquele fluir natural.
Não é um momento de glória em si próprio. É uma onda a lamber os pés. Bonança? Um acordar soalheiro?
Devia contextualizar esta poesia toda, se calhar...
Ontem à tarde fui com a M. até Chorlton, um bairro muito engraçado, onde se passeia a classe média alta de Manchester. Cheia de pequenas esplanadas, padarias, pubs modernos e casas de chá. Foi uma boa caminhada, talvez meia hora, e fomos sentar-nos numa esplanada a beber um copo de vinho. Não nos faltou conversa toda a tarde, o que é fantástico... falámos de tudo um pouco - coisas pessoais, temas mais existencialistas, diferenças culturais, sonhos...
Já ao chegar da noitinha, o frio empurrou-nos para dentro, onde continuámos o vinho e a boa conversa. Entretanto chegou a F. - a italiana que vive na minha casa, que também estava a precisar de companhia e de vinho.
Alegres e menineiras, lá saímos a custo daquele espaço simpático com boa música e energia, para irmos em busca de um take-away para encher a barriga.
Acabámos num take-away de kebabs e afins, onde comi um kebab absolutamente mais picante do que aquilo que seria habitual para mim, mas que não obstante me soube bem!
Entretanto juntou-se a nós o simpático G., também ele já com umas cervejas a contribuir para o seu bom humor.
Quando terminámos de comer fomos para outro pub, para nos refugiarmos do frio. Conversámos mais um bom bocado, e voltámos para casa de táxi.
Quando chegámos a casa demos por nós a comer gelados e a conversar na rua com os restantes inquilinos. Foi uma óptima surpresa, conhecer realmente melhor os colegas de casa - até mesmo P., o inglês que não fala muito. Obviamente que o vinho tinto me tinha soltado a língua, tornando mais fácil o convívio. Mas foi muito engraçado dar sentido a este convívio, finalmente. Com menos pressões e menos receio de dizer algo errado.
Sentir alguma pertença, fosse nas partilhas íntimas e empáticas com a M., ou no braço da F. agarrado a mim, protegendo-se do frio, ou no sorriso cúmplice do G. ou até mesmo na atenção dos flatmates enquanto falo um pouco de mim... foram pequenos gestos que trouxeram sentido aos passos que dei até chegar aqui, a Manchester.
Não vim para ficar, mas espero, com todo o coração, deixar um bocadinho de mim nas pessoas com quem me cruzar aqui.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Coisas que constroem o sorriso de uma emigra.
Porque o sorriso esta semana, embora ainda não seja O sorriso habitual da Nani, já tem vindo a instalar-se no coração. E é lá que ele faz mais falta.
O domingo fez-se de volta da minha série de eleição, Downton Abbey, e uma sopa de tomate à portuguesa.
- 1 lata de tomate aos pedaços
- Oregãos (à falta disso, tinha cá Ervas de Provence, que têm um nome muito mais chique e também contêm oregãos)
- 1 cebola
- 1 ou 2 dentes de alho
- 1 ovo
- Azeite
- Sal
Na sexta-feira fui acordada pelo correio. Trazia uma encomenda para mim, com uma mistura deliciosa de cheiros (e sabores!) de Portugal. O meu queijo favorito, alheiras, farinheiras, o doce de tomate da mãe, um chourição e uma pen drive cheia de séries, gravadas pelo pai!
E por fim, não esquecer os doces passarinhos que habitam por aqui, pretos com peito branco, e que têm um cantar inconfundível (e algo estridente). Aparecem-nos pelo caminho, saltitam, dizem-nos adeus e partem, sem mais. E fazem pessoas tontas como eu sorrir.
Oh, já me esquecia de mais uma coisa. O chá de camomila. Sim, a rotina de fazer um chá de camomila e levá-lo para o quarto, para o beber já quase frio antes de dormir. Também ajuda, o chá. Nisso do sorriso.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Parabéns. a. mim.
Apesar de ter sido um dos meses mais duros de sempre, sou forçada a admitir o óbvio, que toda a gente insistiu em realçar quando vim: passou a voar.
E o G., sem ter noção disso, levou-me a jantar para festejar. Mandou-me mensagem depois do trabalho para irmos beber uma cerveja, e acabámos a jantar no sushi. Foi um bocado muito porreiro, conversámos imenso e enchemos a barriga com uma sopa japonesa super rica, e sushi bastante razoável. Bebemos umas cervejas a acompanhar, apanhámos o autocarro e viemos para casa.
Sinto-me muito orgulhosa de mim. Porque nunca pensei que seria capaz de aguentar isto, agora que sei o quanto custa. Sinto-me orgulhosa porque sei que estou a ser forte. Sei que estou a passar por imensa coisa ao mesmo tempo, mas também tenho a consciência serena de que o pior já terá provavelmente passado.
O choque de aterrar aqui e de me desligar de tudo o que fazia de mim a Nani que todos conhecem - as raízes, os hábitos, a família, os amigos, os lugares comuns e as rotinas - foi sem dúvida difícil.
Mas ainda aqui estou, de pé como uma árvore... Sim, talvez a melhor metáfora seja uma cana de bambu, porque eu abanei... ah, se abanei, com a tempestade, não vou mentir! (também foi o amor que não me deixou descolar as raízes...)
Mas agora que o temporal amainou, deixo-me ficar a saborear a água através da terra, a recolher silenciosamente o produto da minha perseverança. Sabendo que a mim se deve, este sabor na boca. E esse sentimento... bom, esse eu não conhecia.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Segunda-feira. Um monte de trabalho e a operação canja.
Eu não me considero uma pessoa muito inteligente. Tão-pouco me considero organizada. Talvez por isso, gosto de pegar numa tarefa e levá-la de fio a pavio - concentrar-me numa só coisa e fazê-la bem. Como diz o meu pai, "servidor dedicado"!
Acontece que a supervisora que me calhou é a total antítese disto. Está metida em vários projectos gigantes - investigações, auditorias e candidaturas a financiamentos pelo serviço de saúde - em simultâneo, com diferentes prazos e exigências. Resultado: vou ao seu gabinete, combinamos que vou fazer uma coisa; quando me sento frente ao meu computador já tenho um email dela a pedir-me para fazer outra coisa.
Ou seja: quando estou a meio de uma tarefa, que me demorou tempo e neurónios a perceber, a dominar e a realizar, ela lembra-se que precisa de qualquer coisa noutro projecto diferente, para o qual já trabalhei a semana passada e com o qual já não estou familiarizada - estás a ver essa pesquisa que fizeste há duas semanas? Preciso que a faças outra vez! Mas desta vez em cor-de-laranja!
Puf...
E aparte deste dia terrífico, cheguei a casa e decidi concentrar-me na operação canja - ressuscitar os sabores caseiros. Escusado será dizer que não ressuscitei coisíssima nenhuma - até porque coloquei aquilo que eu achava ser caldo de galinha, mas que deixou a sopa castanha e sem sal.
Enfim, não obstante a minha falta de inteligência, o facto é que não há canja como as do papá e da mamã, e comida em casa -, mas esta lá aconchegou o estômago e entreteve a cabeça... E quem ganhou com isto foi a gata Beebee, que teve direito à pele do frango (mas não digam nada à rapariga francesa, que ela acha que não se pode dar comida à gata porque senão ela não nos sai da porta... oui oui, quèlle probleme).
Ao menos desta vez consegui levar uma missão do princípio ao fim...!
domingo, 21 de setembro de 2014
Domingo. day 22
Além disso, fartei-me de caminhar e de ver roupa - H&M, Zara, Marks&Spencer...
A caminho do cinema, tropecei numa feira de comida à beira do Town Hall, onde petisquei e me misturei por entre as pessoas.
Um bom filme é sempre uma forma agradável de nos alhearmos do mundo por um bocadinho, e neste aspecto, este cumpriu a sua função.
Um dia agradável. E quando dou por mim, já vou a caminho do primeiro mês. Estou a controlar mais ou menos isto, penso eu.
E acho que estou a mudar, como pessoa... sinto isso, como um formigueiro leve que vem de dentro. A segurança parece estar a consolidar-se. Ainda que não esteja no meu meio, ou naquele que sinto ser "o meu lugar" - mas sinto que estou a consolidar experiências aqui num meio que me é quase "selvagem", para depois aplicar ao meu contexto real. Sinto uma capa a formar-se. E sinto a minha vontade a querer afirmar-se devagarinho.
Afinal, era também essa a intenção. Mas esta conversa fica para outro dia, que a série ainda não acabou!
Parêntesis sobre o fim-de-semana
Ontem dei por mim a curtir a moleza. Dormi até tarde, tive dificuldade em motivar-me para fazer as tarefas de casa.
A conselho dos pais, lá saí para o frio da rua (ontem estava um dia cinzento), e fui fazer uma caminhada pelo parque. Revigorou-me, o fresco na cara, as crianças com energia para dar e vender e brincarem no jardim. E os cães a correrem, livres e felizes, parque fora. Tocou num "botão" antigo - cães, um parque, ar livre, passear...
Bem, palermices à parte, depois disso fui a um pub aqui perto para satisfazer as minhas necessidades diárias de cafeína, fui às compras e... passei o resto da tarde/noite a cozinhar.
Como diz a mãe, cozinhar pode ser uma terapia. E assim foi a minha terapia: transformar 500 gr de carne picada em hamburguer para o jantar e bolonhesa para as próximas refeições.
Na fotografia figura uma coisa que encontrei no parque enquanto caminhava, e que me fez pensar, por segundos, que tinha andado tanto que tinha chegado à porta de casa.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Resumo dos dias (e vão 21)
Dias de algum sol, o que sempre dá alento. Descubro que o tempo se inverteu - em Portugal, o sol fugiu e deu lugar a um temporal e a imensa chuva. Por aqui, invulgares dias de luz e temperaturas amenas, que levam as inglesas a despirem-se todas. Eu cá acho que também não é caso para perna à mostra e chinelo de enfiar o dedo, mas presumo que para elas isto seja como estar nos trópicos.
Tenho aproveitado as horas de almoço para ler e para passear. Nos primeiros dias ia a correr comer, e voltava para dentro, como via o resto das pessoas fazerem. Mas de facto eu não tenho feitio para isso - quando fazia isso, não produzia nada de jeito de tarde... Agora vou com mais ânimo e concentro-me melhor.
Na quinta-feira fui espreitar um café de que já me tinham falado muito bem - o Small World, uma espécie de pequeno restaurante da comunidade internacional, com comida mais próxima do caseiro e algumas coisas diferentes.
E hoje, sexta-feira, o meu dia livre, começou com panquecas escocesas pré-feitas do Marks & Spencer - bastante boas! Depois fui até ao centro, persegui um empregado da Primark até ele me conseguir umas sabrinas de 4 libras do meu tamanho, e andei a descobrir a H&M - com coisas bem mais giras do que em Portugal!
Mas no domingo estou a pensar ir ver o novo filme do Woody Allen com o Colin Firth e a Emma Stone. Vai ser o luxo da semana!
O coração mantém-se mais aquietado. Acho que talvez este jogo de "faz-de-conta" seja a melhor forma de fintar as dificuldades. Porque as saudades estão lá, e vão crescendo, como uma bola de cotão que se vai acumulando e que daqui a nada entope qualquer coisa. Mas para isso servirá um ocasional fim-de-semana de ida a casa, e a visita do companheiro (e talvez dos pais!). Para aspirar essa bola de cotão, ainda que comece a formar-se outra logo a seguir.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Um novo dia
Hoje voltei a fazer um pouco de clínica. E o meu coração voltou a respirar um bocadinho.Troquei os computadores por pessoas reais. E soube bem. Deparei-me com situações difíceis e soube lidar com elas. Senti-me orgulhosa de mim!
Depois cheguei a casa e tinha uma encomenda. O cheiro da minha casa saía de cada poro da pequena caixa. Nela vinham mimos, beijos, sorrisos.
Aproveitando isso, enrolei o cabelo, pus um brinco novo, enrolei o lenço novo ao pescoço e fui às compras, de cabeça erguida. Quis acreditar que o cheiro do meu lar se me ia colar à pele e acompanhar-me até ao Aldi.
A caminho de casa, dei por mim com um vaso de coentros debaixo do braço, rua fora, a pensar na vida. Agarrei-me ao vaso com força como se fosse, ele próprio, a sensação boa que me vinha a dançar no peito. Quem me dera não a largar mais.
domingo, 14 de setembro de 2014
Dia 16. Resumo.
Verbo: recomeçar. Começar de novo. Todos os dias. Tentar. Fazer com que isto pareça a minha casa. Ilusão de óptica.
(Nuns dias mais fácil. Noutros, nem tanto. Para isso é que existe o chá, o skype e o scrapbooking)
(Nuns dias mais fácil. Noutros, nem tanto. Para isso é que existe o chá, o skype e o scrapbooking)
[Start from scratch. Start over. Every day. Try. To make this look like home. Illusion. ]
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Dia 14
Hoje, não sendo dia de trabalho, foi dia de dormir mais um bocadinho. Não muito, que o despertador interno está activado, e eu não quero que ele se desligue, senão depois no domingo à noite temos petisco.
Ainda pela manhã, recebi um miminho de Portugal! Vinha na forma de um postal lindíssimo (vejam como é lindo!), envolto num envelope cuja cor alegre me fez desde logo saber o remetente. O desenho remete para o "amigo" por quem passo praticamente todos os dias, a caminho do trabalho, e que anda a pastar no relvado por entre as árvores junto à faculdade. As palavras que vinham lá dento devolveram-me a casa, e diminuíram a distância. Em resumo, esta surpresa aqueceu o motor do sorriso, que ficou pronto para se mostrar ao longo do resto do dia.
Saí de casa já tarde, depois de algumas arrumações e de um banho, e fui para o centro - onde me sinto bem, rodeada de gente.
Depois subi até à Market Street, onde comprei um casaco - a mãe é que tinha razão, a dizer que eu ia ter de fazer uma comprinha! - e um mapa mundo para tapar os buracos da parede...
Quando vinha a sair dessa ruela de pubs, de repente oiço uma voz de rua, um autêntico Jamie Cullum! Olho para o lado e vejo um rapaz super novinho com uma guitarra, a encher a rua com a sua voz fantástica. Não resisti a dar-lhe uma moeda e recebi um sorriso de volta. Senti-me quase obrigada a dar algo de volta, por esse bocadinho bom que passei ali a ouvi-lo.
Por fim, recebi uma mensagem a dizer "Estamos aqui e fazes aqui muita falta. Isto não é a mesma coisa sem ti. Muitas saudades..."... e o meu coração derreteu-se. E apesar de uma lágrima malandra querer aparecer, o sorriso foi sem dúvida quem ganhou o dia.
"Ain't no sunshine when she's gone..."
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Dia 11 (porque o dia 10 foi uma trampa)
Hoje tive outro dia bom. Sem razões de maior que o justifiquem, acho eu. Talvez apenas em comparação com o dia de ontem. Talvez porque hoje houve sol. Talvez porque houve passeio à hora de almoço, que sempre arrebita mais do que comer em frente ao ecrã do computador.
Hoje foi dia de correio. Foi dia de passar boas energias, de atirar sorrisos ao papel.
O fim do dia, a chegada a casa foram abençoadas com luz. E por isso foi também dia de ir ao parque que fica mesmo em frente à minha casa, apanhar os últimos raios de sol.
Sentei-me num banco do jardim e fiz o que sei fazer de melhor. Observei.
Aqui as coisas são diferentes. É divertido, isso.
As pessoas deslocam-se até ao parque, para dar aos filhos um pouco de qualidade de vida.
O jardim está cheio com os sons de crianças felizes, apenas interrompido pelo som dos pássaros. Para o observador mais distraído, não estamos no meio da cidade. As árvores frondosas e gigantes do parque criam esta ilusão, abafam o som dos carros, deixam apenas lugar para as famílias.
Obrigo-me a respirar fundo, a fechar os olhos e a relaxar. Sinto a cabeça a rodopiar ligeiramente, como se andasse a voar e só agora me atrevesse a poisar, devagarinho.
Quando as pernas pedem para andar, vou às compras, caminho sem pressa. Junto ao parque há um centro de desportos, com ringues onde vários grupos de jovens e homens adultos gastam as últimas energias do dia, a jogar basket e futebol. Por momentos tenho vontade de saltar lá para dentro. Já tenho saudades de praticar desporto.
Há dias em que parece que algo está a mudar dentro de mim. Que começo a entender e a integrar o que estou aqui a fazer. Desejo com todas as forças agarrar-me a essa sensação, para não a perder. Ao entrar na minha rua, passo novamente pelo parque. Volto a olhar para as crianças, abstraídas, felizes. É por isso que estou aqui. Para construir um futuro para mim. No país que me viu crescer.
domingo, 7 de setembro de 2014
Dia 9 - Porquê negar a criança em mim?
Decidi sair para o centro, e ir ao cinema.
Há um edifício grande chamado Cornerhouse (a casa da esquina), onde o lema é art|film|books|food&drink. Junta tudo isto de uma forma moderna, despretensiosa e criativa.
Assim, comecei por beber um expresso no andar de baixo, numa mesa alta virada para a rua, onde terminei de ler uma aventura do Poirot em "A suspeita", de Agatha Christie.
Para além de tudo disto, vim para casa e ainda dei por mim a dançar no quarto, ouvindo um tema do filme, também chamado "Obvious Child", de Paul Simon. O sorriso voltou, e alguma descontracção também. Dei por mim a pensar nisto tudo.
É curioso como uma aventura destas, de vir para longe de tudo o que me segura e dá alegria, parece agora estar a revelar-se como um desafio do género "reencontrar-me comigo" - mais especificamente, com a pessoa que verdadeiramente sou. Com essa criança de sorriso fácil que deixei de ser.
Isto poderia parecer uma contradição. Vim para longe para crescer! Mas cada um cresce naquilo que precisa de crescer...
E quando penso nas minhas maiores dificuldades, penso que deixei de me rir de mim própria. Como fazia quando era miúda e fazia ou dizia uma patetice qualquer, olhava para a minha irmã a rir-se de boca escancarada e juntava-me a ela nas gargalhadas, ainda que tentasse resistir. Esse acto de deixar de resistir, esse deixar ir...
Deixei de fazer patetices. Deixei de ser eu mesma, como se tivesse de estar sempre contida, sempre séria e crescida. Esqueci-me dessa menina de olho brilhante e sorriso escancarado, que naturalmente atraía as pessoas, porque era genuína. Teci-lhe capas duras, rígidas, inflexíveis. Continuei a andar de passo rápido e não lhe dei a mão, para que me acompanhasse.
Mas agora que penso nisso, como é que podemos rir-nos de nós próprios, se não estivermos confortáveis connosco? E como é que eu posso estar de bem comigo, se não me reconheço? Se de alguma forma me perdi pelo caminho...
Porque no fundo, se nos despirmos de tudo - o nosso lar, a nossa família, as nossas ligações fortes, os nossos hábitos, rotinas e confortos - o que é que nos sobra? Nós mesmos. Vim no fundo em busca dessa menina feliz. É como quando nos sentamos num canto a pensar na asneira que fizemos - sem brinquedos, sem distracções. Temos de nos forçar a olhar para dentro. Não tenho expectativas de regressar uma pessoa completamente diferente - mas tenho a esperança de levar daqui essa porta aberta, para um recomeço.
Porque, não nos enganemos - eu vim à procura de qualquer coisa, não foi?
Hoje encontrei-me com essa menina por um pouco... e soube bem!
Resumindo: este foi um bom dia. E obrigada, Obvious Child, que pareces ter vindo em tão boa hora!
sábado, 6 de setembro de 2014
Dia 8
Foi um sábado preguiçoso. Hoje consegui dormir um pouco mais, ao contrário dos outros dias, mas parece que isso não teve um efeito assim tão bom em mim...
Apetecia-me especialmente andar, fazer coisas por aí, não estar parada em casa.
Aquilo que continua a fazer-me imensa confusão é a quase completa ausência de pessoas na rua!! Fiz o percurso de quase dois quilómetros passando talvez por umas 3 pessoas... Tendo em conta que fui aconselhada a não andar em sítios solitários, isto deixa-me quase sem opções!
Estou a pensar ir ao cinema amanhã, para arejar a cabeça. Tenho sentido imensa falta de umas seriezinhas, tenho de me deixar de preguiças e começar a pesquisar pela net...
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Dia 7
Agarrei no Henry (aspirador com carinha), e transformei-me numa verdadeira Spider Terminator.
Aspirei o quarto de alto a baixo. Depois fui às compras, abastecer-me para uns dias.
E depois rumei ao centro, onde comprei umas boas pechinchas - coisas para cozinhar, para limpar, etc.
O meu orgulho é mesmo o meu wok verde (amanhã ponho foto!), e as minhas luzes, que foram o meu luxo, para dar um toque "naninesco" ao quarto. Também fiz finalmente o gostinho à minha mana, e fui à Boots, que realmente tem muita coisa gira.
Não é a minha casa, volto a repetir. Mas está um cantinho engraçado, e já vai tendo a minha cor.
Fiz o melhor que pude para aumentar o meu conforto.
E depois estive à conversa com esta maltinha nova - e boa, parece-me.
A companheira peluda na foto é a Beebee - a gata dos vizinhos, que pelos vistos gosta da energia da nossa casa, porque passa a vida a dormir no nosso quintal. E neste caso, estava também a gostar do cheirinho do salmão que fiz no wok.
Dia 6 - a mudança
As mudanças são sempre complicadas para a nossa cabeça. Quer queiramos quer não, exige aqui uns "curto-circuitos", e dependendo do nosso estado geral, integramo-las melhor ou pior. Para quem conhece a minha cabecinha de alfinete, já pode imaginar...
Digamos que eu andava ansiosa por poder finalmente desfazer as malas - deixar-me desta coisa de abrir e fechar a mala de cada vez que queria uma blusa, um creme ou umas cuecas. Assentar arraiais.
Mas quando chegou a hora de desempacotar, caiu mais uma ficha - "ah pois é, menina, vieste para ficar. Agora aguenta."
O quarto estava desprovido de vida, embora em muito melhores condições do que o anterior.
É muito espaçoso, tem janelas enormes e uma vista para o jardim. Chão de madeira corrida e um chuveiro só para mim, são comodidades que não são fáceis de conseguir. Mas não é a minha casinha, não é? Para além de que isto é o paraíso das aranhas...
Pelas minhas contas, vou passar os próximos meses a conviver com uma espanhola, uma italiana, uma francesa, um inglês e um francês americanado. Ah, e os dois espanhóis que estavam no meu quarto, que são uns queridos e que prometem voltar já amanhã, para conviver. Pois é, estes meninos decidiram mudar-se para irem viver juntos, mas só deviam sair no dia 12... saíram mais cedo daqui por minha causa, para me dar a vez, porque gostaram de mim. Tenho tido mesmo muita sorte com as pessoas que se têm cruzado no meu caminho.
A noite foi complicada - olhamos à volta, sabemos que aquele vai ser o nosso lugar durante algum tempo, mas não vemos nele a nossa cara, o nosso conforto - não reconhecemos o nosso lar, que está lá bem longe, com as pessoas de quem gostamos agarradinhas a ele.
E foi assim que cheguei a Saint Hilda's Street. Meio alegre, meio chorando.
Dia 5
Foi também dia de experimentar o flapjack, e este era absolutamente delicioso! São uma espécie de barra de cereais mas com aveia e muita manteiga - quase como um crumble compacto! -, e os ingredientes podem ser os mais variados: frutas, chocolate, caramelo... Enfim, uma perdição, mas diga-se de passagem que neste dia estava mesmo a precisar de uma bomba de açúcar...
Por fim, foi também o meu último dia na casa "temporária", pelo que insisti em fazer o jantar para os camaradas da casa - a F., o G. e o R..
Bom, a esmagada foi um sucesso. Já os bifes... enfim, a carne não é o ponto forte de Inglaterra. Está visto que no Natal vou para aí sedenta de uns bifinhos.
Apesar de tudo, foi uma noite agradável. Tenho pena de me despedir dos meus colegas, que são uns porreiros. E também foram muitos os nervos e a ansiedade por me mudar para a casa nova. Agora que já me estava a habituar, começa tudo de novo!
Subscrever:
Comentários (Atom)